sábado, 12 de dezembro de 2009

Comunidade para Mecânicos


Oi gente!

Quem gosta de visitar o blog Mecânicos de Guarda-Chuva, agora pode também participar da comunidade no Orkut.

http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=96920679&refresh=1

Ela está nascendo agora. Mas, como o blog, tem tudo para ser um espaço para quem gosta de literatura, artes, cultura!


Participem com a gente!

Até mais!!

Na linha, Clarice Lispector


Imagem: não sei, não. Se alguém souber, avisa.

De quando se engole um peixe rabudo...


Vai, não pense bobagem desse título. Vem dizer que nunca sentiu aquele embrulho no estômago, que aperta o peito, palpita nos ouvidos (uma sirene), faz comprar Activia pensando que é coisa de intestino preso. Não? A sensação é de que um peixe rabudo se rebate ali, dentro da barriga. Tira a gente do sossego, quase pira. A gente se perde, não sabe se vai, se fica, se roda, enrola, buzina, freia, foge - ou se, simplesmente, esquece essa loucura. Mas não passa, desgraça! Ligo pra Clarice, ligação ruim pra caramba essa que a gente faz para o Céu e cai em algum lugar indeterminado. Ela me diz:

"Perder- se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando".

Eu argumento, digo: "não tô procurando nada, só quero me livrar do peixe". Clarice acha que eu tenho, preciso, devo focar em descobrir o porquê desses sentimentos bagunçados, estranhos, ambientalmente incorretos (por causa do peixe...). E ela me explica, com uma voz grossa, por causa da ligação ruim, que querer respostas faz parte do processo, que é preciso pra que eu não encontre e esqueça essas besteiras, pra que eu saia de boa, livre pra mais algumas que a vida pode aprontar. Ela é pirada, maluca - me deixa maluca. E prossegue:

"Toda compreensão súbita é finalmente a revelação de uma aguda incompreensão. Todo momento de achar é um perder-se a si próprio. Talvez me tenha acontecido uma compreensão tão total quanto uma ignorância, e dela eu venha a sair intocada e inocente como antes".

"Mas eu tenho que controlaaaaaar!", eu grito. E o peixe rabudo dá cambalhotas espremendo meu fígado. Mas é quando ela conta de si, com a sinceridade que eu não tenho, que então se faz entender.

"Minha coragem foi a de um sonâmbulo que simplesmente vai. Durante as horas de perdição tive a coragem de não compor nem organizar. E, sobretudo a de não prever. Até então eu não tivera a coragem de me deixar guiar pelo que não conheço e em direção ao que não conheço: minhas previsões condicionavam de antemão o que eu veria. Não eram as antevisões da visão: já tinham o tamanho de meus cuidados. Minhas previsões me fechavam o mundo".

Eu ia agradecer, ainda que sem me livrar desse maldito peixe que planta bananeira nas águas ácidas do meu estômago, quando... tuh tuh tuh tuh tuh...




(Com citações de A paixão segundo G.H. - Clarice Lispector)

Humanos embutidos


Ilustração: .patrícia


Bilhetes


Babe, o tempo desnuda os pensamentos conforme passa. A esteira é rápida, você é engatado nela e nunca mais sai. Sei que está sentindo o peso inconformado nas costas, em cima dos ombros, um peso de falta de sentido. Pra onde foram as pessoas que te surpreendiam? Sei que quer sair daqui, que o ambiente está com transtorno bipolar e isso estressa. Mas você tem tudo. Uma bela casa, um belo carro, uma mulher dessas que vai ao inferno do teu lado, uma filha que sorri e consome com teus pecados – você nada na pureza da tua imagem refletida na retina dela. E daí?

...

Babe, uma mulher assim não deveria se deixar levar tão fácil. Mas a esteira é rápida, você é engatada nela e nunca mais sai. Sei que está sentido o peso inconformado da idade, o calor, a insônia. Mas pare de comprar tua feminilidade. Você tem uma bela casa, um belo carro, um cara que fala futilidades quando chega do trabalho e te relaxa. Você tem as dobras da experiência no canto dos olhos, as rugas da inteligência no coração. Não pense só com o útero. Pra que trocar tanto esse cabelo? Vai, o tempo desnuda os pensamentos - vai desnudar tua aparência, vai deixar tua bolsa pelada, tua cara caída. E terá remédio? A arte gráfica está cada vez mais cara. Continue mudando a embalagem - e esqueça de ser reconhecida por aí.

...

Babe, a esteira é rápida, você é engatado nela e nunca mais sai. Você não sabe pra onde ela vai, você não sabe como foi parar aí. Você chora escondido temendo a ignorância, se perdendo na alienação que as notícias não alcançam, perdendo amores, amigos, perfumes e flores que estão indo pela esteira logo atrás de você. Etiquetaram teu peso antes, se deu conta que não vai chegar ao alcance do que vem depois de ti?

...

Babe, te vejo na prateleira do supermercado.

Até.

O cão e eu

Antevisse o escuro, nunca que o “guaipeca” insistiria em existir. Acham que não durmo porque leio. É mentira. O cão, toda noite, chora a falta de liberdade no porão da vizinha. A veneziana se transforma em autofalante e encaminha o sonzinho agudo diretamente para os meus tímpanos. Numa das janelas abertas do computador, Borges relata a história da eternidade. A eternidade é a madrugada sem sono – a madrugada com o sono castigado pelo choro do cão.

Os textos de madrugada são raras expressões do dia. O meu punhadinho de 24 horas foi confuso, terminou torto. Eu, um tonto pedaço de gente a reconstruir a esperança. O cão chora e eu choro com o cão depois de lembrar o que me aconteceu. Aconteceu. Ponto. Passou. E a história da eternidade ecoa para pôr ao chão o otimismo que por ora apetece.

Borges e ele; Patrícia e eu. A quem acontecem as coisas? À Patrícia ou a mim? Afinal, qual de nós duas é a destrambelhada?

Perguntinha triste. Se o cão fosse gente, o que será que ele gostaria de ler pra não chorar? Numa dessas, ia preferir um drink, ou álcool puro que nem os moradores de uma cidadezinha lá pros lados de cima do País. Deixa pra lá. Hoje, porque já são 2h12, corro atrás do preju. Enquanto o comércio descansa seus manequins, penso numa estratégia. O jeito é morrer seco, mas não se entregar.

O cão dormiu. É a minha chance.

De mãos dadas com Aldous Huxley

As portas da percepção se fecharam? Não vá tentar abri-las com mescalina. O Admirável Mundo Novo tem se mostrado abominável? Nada de pânico. Pega na mão de Aldous Huxley, vai passar...

Não fique pensando que você vai acertar sempre. Aldous Huxley me disse uma vez, numa dessas minhas caminhadas pelas frestas da incerteza, que “a constância é contrária à natureza, contrária à vida. As únicas pessoas completamente constantes são os mortos”. Rá!

Então, por que não dar a mão para Aldous Huxley? Sentar no sofá depois de uma marchinha psicótica com o Dr. Soup - ou simplesmente encarar aquela frase de orkut que explica tudo: “quando você realmente acredita que pode compensar sua falta de habilidade dobrando os seus esforços, não há limites para a cagada que você pode fazer”.

Mas nada de choro. Nada de velas. Nada disso. Tem uma musiquinha que diz que “no fim das contas a gente faz de conta que isso faz parte da vida ( lá lá lá) e que a gente tenta esquecer, mas todo mundo é uma ilha”.

E, por falar em Ilha, Aldous Huxley me ensinou outra em 1962.

"Cerca de um terço do sofrimento que devo suportar é inteiramente inevitável por ser inerente à própria condição humana. Representa o preço que todos temos que pagar pelo fato de sermos dotados de sensibilidade; embora sedentos de libertação, nos sujeitamos às leis naturais que nos obrigam a continuar caminhando (sem poder retroceder) através de um mundo inteiramente indiferente ao nosso bem-estar. Caminhando em direção à decrepitude e à certeza da morte. Os outros dois terços são confeccionados em casa e o Universo os considera inteiramente supérfluos".

E se é supérfluo, jooooga foooora, meu filho!

Frases soltas lá do meridiano de Greenwich

Revirando alguns passados que guardo em bilhetes de nariz comprido, me vi do meridiano de Greenwich – olhando leste e oeste sem saber pra que lado ir.

Fui reizinho quando acreditava que era responsável pelo que pudesse cativar. Não sou. Sou ruim pra caramba nisso de sorriso Durepox – uma liga reparadora que acha durar para sempre.

Minha cara desconversa. Minhas conclusões são unicamente que sua camisa listrada está na moda zebra-selva-urbana e meus tênis sujos explicam a dureza da preguiça estagiária - aquela que tira o tempo e cutuca alta velocidade no coro pra não se perder o prazo.

Eu tenho saudades de sentar no mundo e ficar observando as gentes de lá fora. Estrelas são pessoas carecas de cabeça pra baixo iluminadas por nossas perguntas.

Eu não tinha saudades de não saber mais como é que se volta.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Duas Namoradas

Tenho duas namoradas
A música e a poesia
Que ocupam minhas noites
Que acabam com meus dias


Uma fala sem parar
A outra nunca desliga
Não consigo separar
Duvido d o dó que alguém consiga


Cantar é saber juntar
Melodia, ritmo e harmonia
Se eu tivesse que optar
Não sei qual eu escolheria


Tem vez que o caso é comigo
Tem vez que sou só sentinela
Xifópagas, caso antigo,
Tem vez que é só entre elas


Nenhum instante se deixam
Grudadas pelas costelas
Nenhum segundo me largam
Também eu não largo delas


Por: Itamar Assumpção