Imagem: não sei, não. Se alguém souber, avisa.De quando se engole um peixe rabudo...
Vai, não pense bobagem desse título. Vem dizer que nunca sentiu aquele embrulho no estômago, que aperta o peito, palpita nos ouvidos (uma sirene), faz comprar Activia pensando que é coisa de intestino preso. Não? A sensação é de que um peixe rabudo se rebate ali, dentro da barriga. Tira a gente do sossego, quase pira. A gente se perde, não sabe se vai, se fica, se roda, enrola, buzina, freia, foge - ou se, simplesmente, esquece essa loucura. Mas não passa, desgraça! Ligo pra Clarice, ligação ruim pra caramba essa que a gente faz para o Céu e cai em algum lugar indeterminado. Ela me diz:
"Perder- se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando".
Eu argumento, digo: "não tô procurando nada, só quero me livrar do peixe". Clarice acha que eu tenho, preciso, devo focar em descobrir o porquê desses sentimentos bagunçados, estranhos, ambientalmente incorretos (por causa do peixe...). E ela me explica, com uma voz grossa, por causa da ligação ruim, que querer respostas faz parte do processo, que é preciso pra que eu não encontre e esqueça essas besteiras, pra que eu saia de boa, livre pra mais algumas que a vida pode aprontar. Ela é pirada, maluca - me deixa maluca. E prossegue:
"Toda compreensão súbita é finalmente a revelação de uma aguda incompreensão. Todo momento de achar é um perder-se a si próprio. Talvez me tenha acontecido uma compreensão tão total quanto uma ignorância, e dela eu venha a sair intocada e inocente como antes".
"Mas eu tenho que controlaaaaaar!", eu grito. E o peixe rabudo dá cambalhotas espremendo meu fígado. Mas é quando ela conta de si, com a sinceridade que eu não tenho, que então se faz entender.
"Minha coragem foi a de um sonâmbulo que simplesmente vai. Durante as horas de perdição tive a coragem de não compor nem organizar. E, sobretudo a de não prever. Até então eu não tivera a coragem de me deixar guiar pelo que não conheço e em direção ao que não conheço: minhas previsões condicionavam de antemão o que eu veria. Não eram as antevisões da visão: já tinham o tamanho de meus cuidados. Minhas previsões me fechavam o mundo".
Eu ia agradecer, ainda que sem me livrar desse maldito peixe que planta bananeira nas águas ácidas do meu estômago, quando... tuh tuh tuh tuh tuh...
(Com citações de A paixão segundo G.H. - Clarice Lispector)