domingo, 3 de fevereiro de 2013
Outro mesmo amor
...Ele vê o corpo de sua nova amante, que se levanta da cama; ela está de pé, exibe seu corpo de costas, as grandes coxas cobertas de celulite; a celulite o encanta como se expressasse a vitalidade de uma pele que ondula, que vibra, que fala, que canta, que estremece, que se exibe; quando ela se inclina para pegar o penhoar jogado no chão, ele não consegue se controlar e nu, deitado na cama, acaricia essas nádegas magnificamente redondas, apalpa essa carne monumental, abundante, cuja generosa prodigalidade o consola e acalma. Um sentimento de paz o invade: pela primeira vez na vida, a sexualidade não envolve nenhum perigo, nenhum conflito ou drama, nenhuma perseguição, nenhuma culpa, nenhuma preocupação; ele não tem que se ocupar de nada, é o amor que se ocupa dele, o amor como ele desejou e que ele nunca teve: amor-repouso; amor-deserção; amor-despreocupação; amor-insignificância...
Extraído do livro "A Ignorância" de Milan Kundera,
e dedicado à Wagner Almeida, a quem tanto admiro
e compartilho pensamentos.
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Desprezado bilhete de amor
(ou, como o amor é piegas)
tem coisas na vida que
não existe ainda palavras exatas para descrever
tem palavras que dizem
tudo sem muita exatidão
tem sentimentos que não
cabem em um sentido
não cabem no peito
uma nuvem escura me
deixa à beira do abismo
me dá medo!
Preciso atravessa-la as
cegas para te encontrar,
sem saber o que vou
encontrar no caminho
mas quando chegar no
seu campo verde e ensolarado
quero te cobrir de
flores e mergulhar no seu gigante sorriso doce.
sábado, 11 de agosto de 2012
Memória e dor
É possível a memória
ser hereditária? Sobreviver a gerações passada por DNA? Foi isso
que me indaguei ao ouvir ela contar.
Nasceu no nordeste seco
e o primeiro casamento de sua mãe não deu certo, mal teve pai.
Quando nasceu sua mãe já não vivia com ele. O próprio nascimento
foi problemático, foi muita complicação e ela demorou muita para
conseguir respirar, dar aquele choro rasgante de bebê.
Quem fez o parto foi a
avó. Experiente parteira da região, ajudou a colocar muita gente no
mundo. Em cada nascimento recebia o título de “mãe de umbigo”.
Era filho que não acabava mais.
Essa mãe de umbigo
passou a ser a primeira mãe. Foi ela quem a criou depois que a mãe
biológica arrumou outro casamento. Essa vó-mãezona era muito amada
e divertida. As duas pareciam crianças uma cuidando da outra. Para
buscar água iam cada uma no lombo de um burro por léguas de
distância, como se dizia por lá. e a mais velha xingava porque a
pequena gostava de ir na frente e trotando o animal a certa
velocidade.
- Não é pra
correr!
- Por que?
- Porque o burro é
meu.
- Mas eu quem estou
montando.
- Oxe...
E assim iam discutindo
todo o caminho. O detalhe é que a pequena tinha apenas 2 anos e a
avó 50.
Imagina a cabeça da
criança quando tempos depois a mãe biológica vai busca-la para
vive com a nova família. A mãe também sempre foi amorosa, mas
naquele tempo não se conversava direito com as crianças, nunca
explicaram para ela porque não via mais a “mãe bia”, querendo
dizer “mãe maria”, nem porque a “mãe ota”, talvez querendo
dizer “mãe outra”, não a levava mais para a roça e tinha que
passar o dia todo trancada dentro de casa olhando o quintal por uma
fresta do vidro quebrado da janela. Ela ficava ali, o dia inteiro com
medo, sem se mover até a mãe voltar. Ela ficava trancada em casa
porque uma dia na roça, bem embaixo do tronco onde ela ficava
sentada olhando a mãe trabalhar na enxada havia uma cobra venenosa.
A mãe, para evitar o risco à criança decidiu mante-la em casa, mas
nunca explicou isso para a menina.
Ela ficou muito anos
sem ver a avó e a dor a fez criar uma espécie de bloqueio metal.
Ela não se lembrava mais da “mãe bia”, o esquecimento talvez
fosse uma forma de se defender da dor da saudade que sentia que avó.
Fiquei ouvindo essa
história que ela me contava e percebi que a solidão, carência e
medo que senti durante toda a vida tinha talvez uma explicação.
Minha mãe acabará de me contar parte de sua infância e não pude
deixar de lembra da minha, tão mais confortável, mas também tão
doída. A vida inteira procurei explicação para a melancolia que
sentia sem motivo e acredito que, se não foi transferido por DNA,
todos esses sentimentos e recordações, foi pelo choro em momento de
angustia, pelo seu olhar deligado em certos momento, por suas canções
tristes para ninar. Sempre me senti profundamente tocado por sua
sensibilidade e por sua alegria mesmo em momentos difíceis.
Sua história explica
um pouco da minha.
sábado, 21 de abril de 2012
na cabeça do tempo - 2
Clarícias
Clarice e eu somos a favor do medo
andamos nas calçadas pelo lado de dentro
mas tu e eu temos muito tempo
e a pela abandonada ao lençol..
eu uso o teu beijo no meu ombro esquerdo
saudades do meu bem que não sabe usar meias
os teus nos meus e minhas, na selvageria...
RESPIRAR ESPERAR VOCÊ DÁ FOME
UM 38 NA CABEÇA DO TEMPO
CASO OS RELÓGIOS SE ATRASEM
Camas e vidas bagunçadas e a pela abandonada ao lençol
saudades do meu bem que não sabe usar meias
saudades do meu bem..
RESPIRAR ESPERAR VOCÊ DÁ FOME
UM 38 NA CABEÇA DO TEMPO
CASO OS RELÓGIOS SE ATRASEM
E O SÁBADO NÃO CHEGUE LOGO
COM VOCÊ...
Música Renata: Swoboda e Patrícia Galelli
Para quem quiser ouvir mais Renata Swoboda: www.renataswoboda.com
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Mãos para ver - ou como desenhar o invisível
Em novembro do ano passado, escrevi uma reportagem sobre a pesquisa da ilustradora Márcia Cardeal para o jornal de cultura Ô CATARINA!, da Fundação Catarinense de Cultura (FCC). A pesquisa virou uma mostra que ainda circula por Santa Catarina. Agora consegui as páginas em JPG e resolvi compartilhar aqui com todos que não tiveram acesso ao impresso.
Vale a pena conferir!
Espero que fiquem tão encantados com este trabalho como eu fiquei.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Adoniran
por: Mario Rui Feliciani
Antes de mais nada, é um dos maiores letristas da Música Popular, o que no Brasil não quer dizer pouco.
Mas algumas análises sobre a obra do Rubinato incomodam.
Identificar Édipo em "Trem das Onze" é tão tolo, que basta dizer isso. "Trem das Onze" é uma das canções que mais brasileiros sabem de cor. Em qualquer lugar que você esteja, todo mundo canta. Ara, quem não tem momentos de amor prejudicados pelas obrigações do dia-a-dia?
Há outra análise, menos estreita, que também não compartilho: de que há legalismo no Adoniran.
O conformismo que às vezes vemos nos muitos personagens que ele cria não é legalismo, mas um certo realismo. Assim como o desprovido tem que se conformar com o raio que cai na sua casa em noite de tempestade, ele também se conforma com a pata cruel do estado e da sociedade que derruba seu barraco.
"oh oh oh oh oh meu senhor / é uma ordem superior" (*)
A relativização do direito de propriedade é recente e ainda insuficiente. A injustiça da ordem superior, baseada em conceito estreito de propriedade, é raio estatal que destrói a vida do desprovido.
Na definitiva "Saudosa Maloca", esse realismo é mostrado pela composição dos três personagens. Nela sim tem um legalista, simplista, "os home ta com a razão"; mas tem também um revolucionário, que quer gritar; e um religioso, que é a última palavra, "Deus dá o frio conforme o cobertor". E, nessa última palavra de fé, está a grande construção do realismo do Adoniran: pra maioria dos ferrados a religião é só o que resta.
João Rubinato não faz a música do "dever ser", mas a do "ser". Nos nossos dias, talvez Adoniran contasse sobre os movimentos sociais que existem e obtêm avanços. Seria bom tê-lo hoje como compositor.
(**)
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(*) Despejo na favela
(**) João Rubinato é o nome de Adoniran Barbosa. Uso pra evitar a repetição, truque estreito de escrevinhador barato.
domingo, 25 de março de 2012
na cabeça do tempo
(das coisas que tenho escrito: uma letra musicada por Renata Swoboda, que a intitulou 'clarícias'.
das coisas que tenho visto: um lustre que fotografei numa pousadinha em São Francisco do Sul-SC.
das coisas que tenho sentido: saudades de davi e rômulo, esses mecãnicos de guarda-chuva.)
Clarice e eu somos a favor do medo
andamos pelo 'lado de dentro das calçadas'
você e eu esperamos muito tempo
guaraná no chão do hotel, camas e vidas bagunçadas
e a pele abandonada ao lençol
saudades do meu bem
que não sabe usar meias
na chuva, na linha do ônibus errado
os teus nos meus e nas minhas
na chuva, na linha do ônibus errado
respirar, esperar você dá fome
um 38 na cabeça do tempo
caso os relógios atrasem
respirar, esperar você dá fome
um 38 na cabeça do tempo
caso os relógios atrasem
e o sábado não chegue logo
com você.
(Patrícia Galelli)
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Mentira
Era um sábado ensolarado. Mas não tinham muitas pessoas naquela praça, as poucas presentes não chamavam atenção. No entanto, não era o silêncio que imperava, era um barulho gostoso de preguiça.
Fiquei ali meio paralisado. Tentava entender o que tinha acontecido, tinha tudo, toda beleza, mas não estava satisfeito, não fazia sentido. Trazia comigo uma marca no peito, algo guardado por muitas gerações, era como uma chaga, um defeito grave.
Tentava esquecer, olhando para as folhas, pra terra, para tudo que é imperfeito. Busca esquecer o que tinha sido. O vento fraco batia na árvore e o sol parecia brilhar mais forte, cegando os olhos. Eu me via correndo entre as folhas secas, como uma criança ilustrada, com uma energia que nunca tive. Corria até perde-me de vista.
Sento no banco com o coração disparado, suo frio e o sol já não me aquece. Sinto um dor leve que vem de dentro pra fora. Já faz tempo que ela esta ai, eu sei, há muitas gerações. Ela vai ficar ai até que eu me esqueça dela, foi assim em outros tempos. Meu rosto enrugado não me deixa mentir. Olho para os lados e vejo, ainda com as vistas embaçadas, eu mesmo sentado em cada conjunto de bancos ao longo da imensa praça. Cada um deles têm um de mim, sentado, chorando.
Penso ser minha a culpa. Acreditei em um ser humano puro e livre dos pesadelos da desonra, guiado por seus sonhos e por suas virtudes, mas acabei matando a todos esses velhos sentados ao meu redor. Sou cúmplice dessa fantasia e carrego comigo a mágoa de querer para esses velhos flácidos o que eu não sou.
(música)
Abra sua mão e mexa forte o seu cabelo
Sinta o latido do seu cão
sinta
é você
Pesa essa dor de nunca ter sido alguém
para ela, você só é mais um passando
você passou, já foi, é esquecimento
Sinta você, nunca foi ninguém
sinta o seu cão
seu cão explode
é você!
[Arranjo de Rômulo Brosco]
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