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quarta-feira, 18 de abril de 2012

Mãos para ver - ou como desenhar o invisível

Em novembro do ano passado, escrevi uma reportagem sobre a pesquisa da ilustradora Márcia Cardeal para o jornal de cultura Ô CATARINA!, da Fundação Catarinense de Cultura (FCC). A pesquisa virou uma mostra que ainda circula por Santa Catarina.

Agora consegui as páginas em JPG e resolvi compartilhar aqui com todos que não tiveram acesso ao impresso.

Vale a pena conferir!
Espero que fiquem tão encantados com este trabalho como eu fiquei.
















Edição: Dennis Radünz
Diagramação: Ayrton Cruz
Revisão: Denise Gonzaga


domingo, 25 de março de 2012

na cabeça do tempo



(das coisas que tenho escrito: uma letra musicada por Renata Swoboda, que a intitulou 'clarícias'.
das coisas que tenho visto: um lustre que fotografei numa pousadinha em São Francisco do Sul-SC.
das coisas que tenho sentido: saudades de davi e rômulo, esses mecãnicos de guarda-chuva.)



Clarice e eu somos a favor do medo
andamos pelo 'lado de dentro das calçadas'
você e eu esperamos muito tempo
guaraná no chão do hotel, camas e vidas bagunçadas
e a pele abandonada ao lençol


saudades do meu bem
que não sabe usar meias


na chuva, na linha do ônibus errado
os teus nos meus e nas minhas
na chuva, na linha do ônibus errado


respirar, esperar você dá fome
um 38 na cabeça do tempo
caso os relógios atrasem


respirar, esperar você dá fome
um 38 na cabeça do tempo
caso os relógios atrasem
e o sábado não chegue logo
com você.

(Patrícia Galelli)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Carta aos leitores






de Ana Cristina Cesar.






Nem mesmo a literatura é capaz de suster tanta
paixão que faz vibrar o leito e o seio e os
recônditos lugares a dizer: eu, eu, eu ou outro
nome qualquer que me arraste úmida
menstruada e inutilmente repetindo as
esquivas figuras da véspera. Mais uma
vez me reclino bêbada sobre os teus
órgãos delicados. As palavras escorrem
como líquidos lubrificando as passagens
ressentidas. Murmúrios sofridos: nunca
te senti tão longe, nunca gritei assim por
ti, nunca o teu corpo coube assim no
meu. Murmuro nome e corpos e
conheço a tristeza deste erotismo
abandonado entre as sequelas de uma
rede. Rabisco meus órgãos, recupero a
fêmea entre sílabas, o varão
despido do varonil apreço mas
não verto tua presença
menstruo tua presença
ao fim do dia. Que
este sangue recubra o
doce álcool que me
distrai. Pérfida esqueço
teus gracejos. Mas qual.
Estes passos ainda percorrem
minha espinha, mesmo que
virgem te aguarde semi
aberta.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Na parede da lata vazia de cerveja

imagem: .patrícia galelli


Quando volto, mal suporto o corpo. Deito calmamente na cama, sentindo as dores na coluna. O container de papeis lidos, cheio das bocas falastronas, de restos de peles sobre a minha, aperto de mão, beijo de oi, abraço de ai que saudade. Não sou tipo de gente que desanima, mas o estômago ronca como motor de moto antiga reinando para aquecer e os pulmões desassossegam, preguiçosos para compromissos vitais – é quando duas balas de festim atravessam artérias e o coração cala a boca oras sim. Oras.
Penso que beber cerveja é perda de tempo e de. Penso que é só perda de tempo, e que o ganho não é a verdade que sai ou a que entra, mas a verdade que existe no instante, só. E depois passa. Verdades sempre passam.
Cinco latas de cerveja descansam ao lado do guarda-roupa. Esperam a hora da morte. O ápice da existência são os minutinhos que antecedem a morte – vou assassiná-las daqui a sete e despudoradamente jogarei seus corpos de alumínio numa sacola de supermercado, e intencionalmente as abandonarei em frente a minha casa. Penso que mais próximo local do crime, menor suspeita.
Cinco latas de cerveja estão vazias e vão morrer. Só cinco, são o suficiente para as memórias que irão grudadas à ausência de seus interiores. Só isso. Só.
Cinco é um número que não gosto. É por isso que o assassinato não me comove muito. A vida das latas vazias de cerveja é assim mesmo. No carnaval elas são dizimadas, usadas e depois pisadas, depois não têm enterro nem nada. As gentes desatentas da felicidade que bebem só carregam as memórias do que viveram porque esquecem de grudá-las dentro do vazio das latinhas. Memórias são coisas que não se guarda, li no “Vazio da Existência”.
E depois da ressaquinha de nada, tudo continua como se nada nada nada tivesse acontecido. Não lembro de nada. Do que mesmo eu estava falando?

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

à .patrícia


Em celebração a nossa amiga e talentosíssima mecânica de guarda-chuva, Patrícia Galelli, que completa anos, vamos publicar um desenho inédito dessa jovem, além de textinhos inspirados nesse seu desenho e em outros coisas.
Aproveitamos a oportunidade para desculparmo-nos pela total improdutividade artística desses mecânicos aqui, o que tem deixado o blog a beira do abismo; e por isso o desenho também é providencial. 
Não será por falta de amigos e de ideias interessantes de deixaremos esse espaço aqui abandonado, pois a cada dia as coisas acabam-se e tornam a começar, estamos aqui para isso.

Felicidades à .patricia, com carinho.


 menina Pagu, musa trágica da revolução




A arte nos salva
de nós mesmos
meta cotidiano
meta dissonância

a arte no liberta
meta fuga
metade livre

a arte cria
o meta mundo

por: Davi Amorim



É lindo vê-la caindo
Sentindo a velocidade exponencial da gravidade
Tomando seu corpo dos pés à cabeça.
Tenho você nas mãos, contemplo adormecer e despertar
Mas não a possuo por completo,
Amargo-me e enfureço-me
Percebo que a única maneira de tê-la totalmente é perdendo-a
Sentir sua distância, sua falta, sua queda livre
Talvez em outros braços, em outro chão, em pedaços.

por: Romulo Brosco

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Outras vertigens

foto: .patrícia galelli
Espetáculo: Pequenas incisões para quem ama - Carretel Cia Teatral


Ela tragou o charuto cubano. Tudo se castiga, e as pessoas que não têm projeto são lábios de cera, gente que não goza, que não ama, que. Uma mente inçada em pensamento que não é. A negação não vem de agora e ela era uma perdida entre tantas vozes destoadas de baralho. Não joga, não é. À espera, é uma imensa falta de tudo, a folia descarada, a beira do estilhaço à cara lavada de extremos. Penso que nada mais existe depois dela, sou o que me levou a fazer, um insone. A fome da pragmática escapatória.
Não há nada aqui. Nem em mim. Respiro a melancolia do suspirinho. Sei que atrasei e que não tem mais como alcançá-la. Ando meio sei lá, sem nada. Querendo alguém, me tire desse lugar, dela, de nós. Nos deixe cinza como somos, nos deixe apenas ser, sorrisos, medos, azulejo falso, Argentina em dezembro. Intactos, e olhar a lua quase não será uma aberração desenhada de giz de alma hipocondríaca. Iluminuras não servem. Esquizofrênicos observam. Pontes ao espaço que não vive no mundo “amendoíndico” da solidão - planeta japonês. O mundo está voltado para um “dentro” que não alcanço, nem como.
Alguém já deve ter falado de buraco meio ao peito, não é vala que dá prazer, não é sexo, não é nem negação. É periódico sistema de internação imediata. Sintomas: vômito contido, dor de cabeça contida, fala que não sai, fígado bem cozido, em contenção – o doutor não soube explicar.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

poetice virtual

ontem é muito longe daqui diz:

agora
as flores nascem
sob o sol manso
da desordem
e algumas freiras
derramam perfume
em meus olhos

agora
o delirio
me consome
como uma oracao
blasfema

. patrícia diz:
agora
é pó que a chuva
secou
e ar que não
transpassa a
violência da
rotina

ontem é muito longe daqui diz:
aves do desatino
roendo os ombros
da seriedade
no ritmo dos dias
carbonizados pelo tedio

. patrícia diz:
o único pecado.

ontem é muito longe daqui diz:
(copia isso)

ontem é muito longe daqui diz:
?)


.patrícia e José Menin

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Ponto


imagem: .patrícia


Os olhos ardiam de não ver o que restava. Mordidas eram cigarras enviesadas pelo inverno – pobres. Encurralar as respostas não era se encurralar, mas impotência. E, mesmo que decidisse, nem mãe nem pai nem outros entenderiam. Sentia muito. Mas seguia esquinas madrugadas castanhos morenos montanhas. Não era mulher agora. Amanhã peitos. A manha era ser dois, duas três ou mais vezes noite afora. Lá fora o táxi para, a chuva amansa, a calçada cai.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Cinema francês e unhas vermelhas


imagem: .patrícia galelli - uma fotografia apaziguada com o sol.
Na foto, obra de Lucas Isawa


Encontrei ela na saleta verde dos humanos não-praticantes. Idade: 21. Se queixava das palavras que não viravam ações dignas num contexto, se deixava levar por ideias do tipo “pra onde ele foi?”, levava o tranquilo do mundo para onde quisesse com aquele sorriso de braços abertos. É amiga da Fernanda, da Carol, da Maysa. Tem um cachorro que não sei o nome. Lembro de como fazia bico pra fazer foto - cara quebrada em frente ao espelho. Ou o espelho rabiscado pela tinta de algum ato violento.
O que sabia, o tempo não cura tudo. Uma fotografia apaziguada com o sol – reflexo do que pensava. A menina era assim e também não tinha nome, por causa da instabilidade emocional da mãe, explicava aos amigos. Detalhes, cinema francês e unhas vermelhas. Uma solidão multicolorida nos lençóis.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Ontem

Dia anterior é jeito de não viver feliz os próximos e suas repetições. Vejo Paul Auster toda vez que acordo, no canto do quarto, olhar fotografias da solidão passada. Minha manhã boceja um bom dia custoso e eu quase não me coloco uma roupa decente. Arrumo a cama só porque a mãe pode chegar cedo. Ela não sabe que sou autista e transgrido minhas horas em inutilidades, que ela na verdade tem vergonha, ou que deveria. Só quando a filha da vizinha domina as ondas sonoras do bairro e emana aos meus tímpanos a dose matinal de sua falta de surra é que me curo do autismo. Meus ouvidos bebem, meus nervos padecem, a doença some - chegam o colapso e a demência.

Ontem levei minha avó medir os ossos. Seria um passeio, para não dizer um plano desonesto de me tirarem de casa e me fazerem útil. A utilidade às vezes me soa maneira delicada de acreditar que ainda falta um monte para morrer. Antes de voltar, ela queria remédios para os rins, para os nervos, para o estômago, o fígado, para o sangue, as células, para o reumatismo, diabetes e queria salada. Deixou a aposentadoria na farmácia e voltou sem a alface.

domingo, 4 de abril de 2010

Entrevista: Manoel Ricardo de Lima



imagem: divulgação


Manoel Ricardo de Lima, quando senta e cruza as pernas para falar de poesia, lança ao ar o que sabe de um jeito só dele. A construção da linha de pensar é feita com as mãos e a voz falando juntas – para os ouvidos de quem o vê, segue devagar a delicadeza. Movimentos e som desenham o que diz num quadro imaginário logo à frente. Nascido em Parnaíba-PI, Manoel é escritor, crítico literário, poeta e professor. Um tanto de coisas, que nem ele sabe como cabem todas numa vida só.
Publicou Embrulho (7Letras), Falas Inacabadas, com Elida Tessler (Tomo Editorial), Entre Percurso e Vanguarda – alguma poesia de P. Leminski (Annablume), As Mãos (7Letras), outra manhã, com Aníbal Cristobo e Eduardo Frota (Dragão do Mar), As Mãos/ The Hands, com tradução de Sérgio Bessa (Lumme Editor), 55 Começos (Editora da Casa) e quando todos os acidentes acontecem (7Letras).


Patrícia Galelli: Em que momento você sentiu que a Literatura faria parte de sua vida? Qual a intensidade dessa presença?

Manoel Ricardo de Lima: Não sei dizer isso, com precisão. Mas desde menino – por conta das histórias em quadrinhos – entrei em contato com um certo universo de imaginação, que mesmo precário de certa maneira, é muito rico em vários outros desdobramentos. E sempre ouvi muitas histórias e não sei bem porque sempre tive uma atenção dobrada para ouvir histórias, uma atenção que é também distraída, aparentemente, porque tenho uma inquietação constante. E aí, sempre acho que tem a ver um pouco com isso. Quanto à intensidade desta presença nunca consigo estabelecer uma medida. Penso que, como tudo nesta vida, há impasses de amor e ódio (ódio que não deixa de ser também um desajuste amoroso), talvez assim uma presença ausente, uma falta, uma lacuna ou um buraco, para ser mais firme com a imagem. Mas é intenso demais sim, não saberia fazer outra coisa, nem me mover noutro lugar que não numa travessura do pensamento também pela literatura. Mas a literatura é, para mim, um também; ela não mora sozinha por aqui.

Patrícia Galelli: Como foi sua trajetória literária do Piauí a Santa Catarina?

Manoel Ricardo de Lima: Não tenho trajetória literária, ao menos não queria ter. Quero muito mais que leiam o meu trabalho como um percurso de travessia entre várias coisas que me interessam, do poema até a linha, da pintura até a imagem de síntese etc. A saída do Piauí foi uma estratégia de sobrevivência, como as viagens todas para vários lugares, como morar fixo em Fortaleza por um tempo, como ir embora de lá, como ter vindo pra Florianópolis, como desejar muito ir embora daqui agora. Tudo uma questão de sobrevivência, de ventilação, de deriva, para o pensamento, para o corpo, para a alma, para nada, muitas vezes. Meus livros e o meu trabalho não tem a ver diretamente com estas topografias, mas sim, e muito mais, com o deslocamento de qualquer idéia de uma topografia fixa.

Patrícia Galelli: De que forma a academia interfere em ou contribui com suas produções?

Manoel Ricardo de Lima: Já interferiu mais, hoje penso a academia como um lugar estranho, lugar que tem uma gerência de negociata estranhíssima. Mas a forma de tomar um sentido ali, atribuir ao fato de estar nela como um vento ou uma visita, para incomodar a negociata, me é muito agradável. Daí, gosto muito de ser professor, sei que sou professor, e não tem como separar a vida em duas ou três, o que é uma pena, porque deveria ter como, mas não tem. Sempre imaginei ser 15 ou 20 ao mesmo tempo para dar conta de todos os meus desejos e emperros. Mas enfim, o fato é que a leitura crítica que a academia me sugere como proposição vai para o meu trabalho com a mesma força que o meu trabalho entra nas minhas perspectivas por dentro da academia, como uma coisa só, separada, mas um mesmo projeto de atuação política no mundo.

Patrícia Galelli: Escritor de poemas, prosas, ensaios. De que forma você sente cada gênero?

Manoel Ricardo de Lima: O gênero me interessa muito pouco, como tal. O meu problema é com a linha, que vem de um estatuto natural, primitivo, ancestral, e depois entra o livro, como uma dobra plissada. Daí, tanto faz, o que me interessa é como posso me mover por esta linha dobrada e provocar nesta linha uma contaminação de afetos, de formas de fazer e maneiras de mostrar um trabalho. O problema é que nosso país é muito careta, quase inteiramente, e tudo ainda é muito separadinho.

Patrícia Galelli: Você tem medo de errar?

Manoel Ricardo de Lima: Eu sempre prefiro o erro, mais de uma vez até. Em tudo.

Patrícia Galelli: Como você sente o processo que se atravessa entre os rabiscos e a publicação?

Manoel Ricardo de Lima: Ah, isso é o bacana do lance de pensar um trabalho, o sumiço dele como princípio e o que ele se torna quando aparece como objeto. E fica só nisso, o objeto. O que você chama de rabisco some, por completo, apago tudo. E isto é uma alegria, meus trabalhos dependem de uma alegria intensa, minha, para que eles sejam feitos.

Patrícia Galelli: Do que você gostava de brincar quando era criança?

Manoel Ricardo de Lima: Cresci em cidade pequena, daí podia tanto subir em árvore, correr pra todo lugar, jogar futebol na rua em qualquer terreno baldio (o que fiz muito e exageradamente) ou ficar no quarto com aqueles pequenos bonecos de cowboy e meu forte apache imaginando um truque de fuga para outro mundo. À noite, corria num esconde-esconde ou ficava numa conversa frouxa em qualquer banco da pracinha mais próxima com os amigos de infância. Não sei mais deles, nenhum, a infância é de fato uma coisa que ficou lá, quieta, guardada, ela termina de uma vez. E isto muitas vezes me parece muito ruim.

Patrícia Galelli: Algum novo projeto de livro está em desenvolvimento?

Manoel Ricardo de Lima: Sempre há, um ou vários. Um amigo que trabalha com vídeo e artes visuais, o Alexandre Veras, sempre diz que o importante é ter projetos, não importa muito se eles irão se realizar. Então, projeto sempre há, se eles vão existir para os outros, importa muito pouco.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

MAD

Para ELES, palavra em inglês que significa LOUCA.

Para ELAS, sigla em português que siginifica Mulher que Ama Demais.

Entre o estômago e o ralo

Me perguntei se era certo apoderar-me da minha vida para isso. Ele conferia daquele jeito a caixa de correio toda vez. O jeito empedrava meus olhos, era realmente os olhos de antes. O short sem botão, nas cores largas de sorriso refém da timidez, ele descia a rampa de concreto para se apagar enquanto amanhã não viesse. E eu ligava o carro, os faróis, e achava que amolecia os olhos antes de chegar à esquina de casa. Medo de bater, de ferir quem viesse pela pista ao lado, ao contrário de mim e de nós.

O amor homeopático que bebia em doses pequenas dia a dia era remédio de ferida à preguiça e mal estar. O amor morria a cada gole. Antes do gole, eu morria de vontade de fazer bochecho com o amor, esse. Senti-lo passar por todos os meus dentes, misturar-se à saliva e até de renunciar minha garganta na possibilidade de me afogar com ele.

Agora não sei da urgência que me toma. Me sinto numa boca, num bochecho. Eu passo por dentes, viro outro líquido ao me misturar à saliva e sei que há renúncia de uma garganta para um afogamento em mim.

Um bochecho, dois destinos. O ácido sarcástico do estômago ou o ralo mofado que leva à merda.

Foi nenhum, quando os olhos enfraqueceram e dois pequenos montes de pó castanho se formaram sobre o vestido azul que alcançava minhas coxas moles.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Comunidade para Mecânicos


Oi gente!

Quem gosta de visitar o blog Mecânicos de Guarda-Chuva, agora pode também participar da comunidade no Orkut.

http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=96920679&refresh=1

Ela está nascendo agora. Mas, como o blog, tem tudo para ser um espaço para quem gosta de literatura, artes, cultura!


Participem com a gente!

Até mais!!

Na linha, Clarice Lispector


Imagem: não sei, não. Se alguém souber, avisa.

De quando se engole um peixe rabudo...


Vai, não pense bobagem desse título. Vem dizer que nunca sentiu aquele embrulho no estômago, que aperta o peito, palpita nos ouvidos (uma sirene), faz comprar Activia pensando que é coisa de intestino preso. Não? A sensação é de que um peixe rabudo se rebate ali, dentro da barriga. Tira a gente do sossego, quase pira. A gente se perde, não sabe se vai, se fica, se roda, enrola, buzina, freia, foge - ou se, simplesmente, esquece essa loucura. Mas não passa, desgraça! Ligo pra Clarice, ligação ruim pra caramba essa que a gente faz para o Céu e cai em algum lugar indeterminado. Ela me diz:

"Perder- se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando".

Eu argumento, digo: "não tô procurando nada, só quero me livrar do peixe". Clarice acha que eu tenho, preciso, devo focar em descobrir o porquê desses sentimentos bagunçados, estranhos, ambientalmente incorretos (por causa do peixe...). E ela me explica, com uma voz grossa, por causa da ligação ruim, que querer respostas faz parte do processo, que é preciso pra que eu não encontre e esqueça essas besteiras, pra que eu saia de boa, livre pra mais algumas que a vida pode aprontar. Ela é pirada, maluca - me deixa maluca. E prossegue:

"Toda compreensão súbita é finalmente a revelação de uma aguda incompreensão. Todo momento de achar é um perder-se a si próprio. Talvez me tenha acontecido uma compreensão tão total quanto uma ignorância, e dela eu venha a sair intocada e inocente como antes".

"Mas eu tenho que controlaaaaaar!", eu grito. E o peixe rabudo dá cambalhotas espremendo meu fígado. Mas é quando ela conta de si, com a sinceridade que eu não tenho, que então se faz entender.

"Minha coragem foi a de um sonâmbulo que simplesmente vai. Durante as horas de perdição tive a coragem de não compor nem organizar. E, sobretudo a de não prever. Até então eu não tivera a coragem de me deixar guiar pelo que não conheço e em direção ao que não conheço: minhas previsões condicionavam de antemão o que eu veria. Não eram as antevisões da visão: já tinham o tamanho de meus cuidados. Minhas previsões me fechavam o mundo".

Eu ia agradecer, ainda que sem me livrar desse maldito peixe que planta bananeira nas águas ácidas do meu estômago, quando... tuh tuh tuh tuh tuh...




(Com citações de A paixão segundo G.H. - Clarice Lispector)

Humanos embutidos


Ilustração: .patrícia


Bilhetes


Babe, o tempo desnuda os pensamentos conforme passa. A esteira é rápida, você é engatado nela e nunca mais sai. Sei que está sentindo o peso inconformado nas costas, em cima dos ombros, um peso de falta de sentido. Pra onde foram as pessoas que te surpreendiam? Sei que quer sair daqui, que o ambiente está com transtorno bipolar e isso estressa. Mas você tem tudo. Uma bela casa, um belo carro, uma mulher dessas que vai ao inferno do teu lado, uma filha que sorri e consome com teus pecados – você nada na pureza da tua imagem refletida na retina dela. E daí?

...

Babe, uma mulher assim não deveria se deixar levar tão fácil. Mas a esteira é rápida, você é engatada nela e nunca mais sai. Sei que está sentido o peso inconformado da idade, o calor, a insônia. Mas pare de comprar tua feminilidade. Você tem uma bela casa, um belo carro, um cara que fala futilidades quando chega do trabalho e te relaxa. Você tem as dobras da experiência no canto dos olhos, as rugas da inteligência no coração. Não pense só com o útero. Pra que trocar tanto esse cabelo? Vai, o tempo desnuda os pensamentos - vai desnudar tua aparência, vai deixar tua bolsa pelada, tua cara caída. E terá remédio? A arte gráfica está cada vez mais cara. Continue mudando a embalagem - e esqueça de ser reconhecida por aí.

...

Babe, a esteira é rápida, você é engatado nela e nunca mais sai. Você não sabe pra onde ela vai, você não sabe como foi parar aí. Você chora escondido temendo a ignorância, se perdendo na alienação que as notícias não alcançam, perdendo amores, amigos, perfumes e flores que estão indo pela esteira logo atrás de você. Etiquetaram teu peso antes, se deu conta que não vai chegar ao alcance do que vem depois de ti?

...

Babe, te vejo na prateleira do supermercado.

Até.

O cão e eu

Antevisse o escuro, nunca que o “guaipeca” insistiria em existir. Acham que não durmo porque leio. É mentira. O cão, toda noite, chora a falta de liberdade no porão da vizinha. A veneziana se transforma em autofalante e encaminha o sonzinho agudo diretamente para os meus tímpanos. Numa das janelas abertas do computador, Borges relata a história da eternidade. A eternidade é a madrugada sem sono – a madrugada com o sono castigado pelo choro do cão.

Os textos de madrugada são raras expressões do dia. O meu punhadinho de 24 horas foi confuso, terminou torto. Eu, um tonto pedaço de gente a reconstruir a esperança. O cão chora e eu choro com o cão depois de lembrar o que me aconteceu. Aconteceu. Ponto. Passou. E a história da eternidade ecoa para pôr ao chão o otimismo que por ora apetece.

Borges e ele; Patrícia e eu. A quem acontecem as coisas? À Patrícia ou a mim? Afinal, qual de nós duas é a destrambelhada?

Perguntinha triste. Se o cão fosse gente, o que será que ele gostaria de ler pra não chorar? Numa dessas, ia preferir um drink, ou álcool puro que nem os moradores de uma cidadezinha lá pros lados de cima do País. Deixa pra lá. Hoje, porque já são 2h12, corro atrás do preju. Enquanto o comércio descansa seus manequins, penso numa estratégia. O jeito é morrer seco, mas não se entregar.

O cão dormiu. É a minha chance.

De mãos dadas com Aldous Huxley

As portas da percepção se fecharam? Não vá tentar abri-las com mescalina. O Admirável Mundo Novo tem se mostrado abominável? Nada de pânico. Pega na mão de Aldous Huxley, vai passar...

Não fique pensando que você vai acertar sempre. Aldous Huxley me disse uma vez, numa dessas minhas caminhadas pelas frestas da incerteza, que “a constância é contrária à natureza, contrária à vida. As únicas pessoas completamente constantes são os mortos”. Rá!

Então, por que não dar a mão para Aldous Huxley? Sentar no sofá depois de uma marchinha psicótica com o Dr. Soup - ou simplesmente encarar aquela frase de orkut que explica tudo: “quando você realmente acredita que pode compensar sua falta de habilidade dobrando os seus esforços, não há limites para a cagada que você pode fazer”.

Mas nada de choro. Nada de velas. Nada disso. Tem uma musiquinha que diz que “no fim das contas a gente faz de conta que isso faz parte da vida ( lá lá lá) e que a gente tenta esquecer, mas todo mundo é uma ilha”.

E, por falar em Ilha, Aldous Huxley me ensinou outra em 1962.

"Cerca de um terço do sofrimento que devo suportar é inteiramente inevitável por ser inerente à própria condição humana. Representa o preço que todos temos que pagar pelo fato de sermos dotados de sensibilidade; embora sedentos de libertação, nos sujeitamos às leis naturais que nos obrigam a continuar caminhando (sem poder retroceder) através de um mundo inteiramente indiferente ao nosso bem-estar. Caminhando em direção à decrepitude e à certeza da morte. Os outros dois terços são confeccionados em casa e o Universo os considera inteiramente supérfluos".

E se é supérfluo, jooooga foooora, meu filho!

Frases soltas lá do meridiano de Greenwich

Revirando alguns passados que guardo em bilhetes de nariz comprido, me vi do meridiano de Greenwich – olhando leste e oeste sem saber pra que lado ir.

Fui reizinho quando acreditava que era responsável pelo que pudesse cativar. Não sou. Sou ruim pra caramba nisso de sorriso Durepox – uma liga reparadora que acha durar para sempre.

Minha cara desconversa. Minhas conclusões são unicamente que sua camisa listrada está na moda zebra-selva-urbana e meus tênis sujos explicam a dureza da preguiça estagiária - aquela que tira o tempo e cutuca alta velocidade no coro pra não se perder o prazo.

Eu tenho saudades de sentar no mundo e ficar observando as gentes de lá fora. Estrelas são pessoas carecas de cabeça pra baixo iluminadas por nossas perguntas.

Eu não tinha saudades de não saber mais como é que se volta.