sábado, 11 de agosto de 2012

Memória e dor



É possível a memória ser hereditária? Sobreviver a gerações passada por DNA? Foi isso que me indaguei ao ouvir ela contar.
Nasceu no nordeste seco e o primeiro casamento de sua mãe não deu certo, mal teve pai. Quando nasceu sua mãe já não vivia com ele. O próprio nascimento foi problemático, foi muita complicação e ela demorou muita para conseguir respirar, dar aquele choro rasgante de bebê.
Quem fez o parto foi a avó. Experiente parteira da região, ajudou a colocar muita gente no mundo. Em cada nascimento recebia o título de “mãe de umbigo”. Era filho que não acabava mais.
Essa mãe de umbigo passou a ser a primeira mãe. Foi ela quem a criou depois que a mãe biológica arrumou outro casamento. Essa vó-mãezona era muito amada e divertida. As duas pareciam crianças uma cuidando da outra. Para buscar água iam cada uma no lombo de um burro por léguas de distância, como se dizia por lá. e a mais velha xingava porque a pequena gostava de ir na frente e trotando o animal a certa velocidade.
- Não é pra correr!
- Por que?
- Porque o burro é meu.
- Mas eu quem estou montando.
- Oxe...
E assim iam discutindo todo o caminho. O detalhe é que a pequena tinha apenas 2 anos e a avó 50.
Imagina a cabeça da criança quando tempos depois a mãe biológica vai busca-la para vive com a nova família. A mãe também sempre foi amorosa, mas naquele tempo não se conversava direito com as crianças, nunca explicaram para ela porque não via mais a “mãe bia”, querendo dizer “mãe maria”, nem porque a “mãe ota”, talvez querendo dizer “mãe outra”, não a levava mais para a roça e tinha que passar o dia todo trancada dentro de casa olhando o quintal por uma fresta do vidro quebrado da janela. Ela ficava ali, o dia inteiro com medo, sem se mover até a mãe voltar. Ela ficava trancada em casa porque uma dia na roça, bem embaixo do tronco onde ela ficava sentada olhando a mãe trabalhar na enxada havia uma cobra venenosa. A mãe, para evitar o risco à criança decidiu mante-la em casa, mas nunca explicou isso para a menina.
Ela ficou muito anos sem ver a avó e a dor a fez criar uma espécie de bloqueio metal. Ela não se lembrava mais da “mãe bia”, o esquecimento talvez fosse uma forma de se defender da dor da saudade que sentia que avó.
Fiquei ouvindo essa história que ela me contava e percebi que a solidão, carência e medo que senti durante toda a vida tinha talvez uma explicação. Minha mãe acabará de me contar parte de sua infância e não pude deixar de lembra da minha, tão mais confortável, mas também tão doída. A vida inteira procurei explicação para a melancolia que sentia sem motivo e acredito que, se não foi transferido por DNA, todos esses sentimentos e recordações, foi pelo choro em momento de angustia, pelo seu olhar deligado em certos momento, por suas canções tristes para ninar. Sempre me senti profundamente tocado por sua sensibilidade e por sua alegria mesmo em momentos difíceis.
Sua história explica um pouco da minha.

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