terça-feira, 6 de abril de 2010

Ontem

Dia anterior é jeito de não viver feliz os próximos e suas repetições. Vejo Paul Auster toda vez que acordo, no canto do quarto, olhar fotografias da solidão passada. Minha manhã boceja um bom dia custoso e eu quase não me coloco uma roupa decente. Arrumo a cama só porque a mãe pode chegar cedo. Ela não sabe que sou autista e transgrido minhas horas em inutilidades, que ela na verdade tem vergonha, ou que deveria. Só quando a filha da vizinha domina as ondas sonoras do bairro e emana aos meus tímpanos a dose matinal de sua falta de surra é que me curo do autismo. Meus ouvidos bebem, meus nervos padecem, a doença some - chegam o colapso e a demência.

Ontem levei minha avó medir os ossos. Seria um passeio, para não dizer um plano desonesto de me tirarem de casa e me fazerem útil. A utilidade às vezes me soa maneira delicada de acreditar que ainda falta um monte para morrer. Antes de voltar, ela queria remédios para os rins, para os nervos, para o estômago, o fígado, para o sangue, as células, para o reumatismo, diabetes e queria salada. Deixou a aposentadoria na farmácia e voltou sem a alface.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Voltando pra casa (contrações)

Sempre assisto a filmes estúpidos em dias aparentemente estúpidos, nada mais apropriado a alguém como eu. Apago todas as luzes, deixo as janelas abertas, abandonadas, aproximo o café. Se for pensar, faz sentido. faltando poucas horas para o fim de um dia que esteve em sua maior parte com uma chuvinha ordinária cheirando à mofo e sem nenhuma perspectiva de sexo à dois (ou mais), nada melhor do que contribuir pra que ele acabe pleno em sua mediocridade.
O roteiro vence o efeito do café e adormeço. No sonho sou idêntico à realidade: nada de super-poderes, super-aventuras ou super-membros. Estou caminhando debaixo de uma chuva dos infernos, a calçada é estreita e uma procissão de carros passam jorrando água de sarjeta pra tudo quanto é lado, corro o máximo que posso até chegar na minha utópica casa, abro a porta e entro, ouço som de buzina, saio e não há carro algum, entro e o som torna a soar, saio e entro mais algumas vezes até que enfurecido furo os tímpanos com um hashi. A dor no sonho me acorda, a buzina continua. Foda-se, não vou servir de palhaço. A buzina insiste. Visto a peruca e o nariz vermelho e vou lá fora ver quem é. O carro está todo filmado, inclino-me pra tenta enxergar algo, os vidros baixam eletricamente...
__Entra!
__Desse jeito?
A porta abre...
__Melhor agora?
Mesmo em trajes circenses adentro o auto que sai lentamente pela noite até agora estúpida.
Tentei tirar alguns assuntos da manga, infalíveis outrora, mas que não surtiram efeito desta vez. O maior movimento que seu pescoço fez foi o de levar os olhos até o retrovisor. Atrevi-me e abri o porta-luvas, vasculhei dentre os compactos algo que fosse impactante. "The Night", belíssimo. Já conquistei mulheres entoando aquelas melodias. Enquanto me entretia no manejo do tocador não percebi que o carro estava em repouso. Algumas moedas caíram sobre meu colo.
__Traga-me cigarros e um isqueiro.
Obedeci imediatamente, acreditando que aquilo, de alguma forma, pudesse render uma oportunidade de sexo à dois. Voltando ao carro, já empunhado do maço e tambor, ofertei o produto.
O carro voltou a movimentar-se...
__Acenda um, sim?
__Pronto, tome.
__Agora fume-o!
Apesar de nunca ter fumado, o fiz. Traguei, enchi o interior do auto de fumaça. Comecei a divagar sobre seus efeitos mágicos: Talvez o mistério seja esse, e tambem o caminho. Vislumbrei nisso uma raiz de excitação. Aquela neblina fétida pode ser seu fetiche, sua tara. Uma loucura sexual banhada a fumaça, cinzas e tumor palatar, o pulsar daquele movimento. Por que não? tem louco que se excita martelando o pau, foda-se, vou me entregar a esse delírio, transformar essa noite estúpido em torpor, escândalo, gozo. No auge da loucura e do terceiro acendido "na bunda do outro" meti a mão no meio de suas coxas, subindo com pressão até alcançar meu objetivo.
Com as mãos no volante e ainda dirigindo e soltando ruídos inaudíveis de, à princípio desejo, parece que queria me dizer algo. O ar começou a pesar senti uma pressão insuportável sobre a cabeça, começamos a gritar, olhei para o céu pelo pára brisas e avistei assustadoramente descer em seqüência, em ordem alfabética, os nomes dos atores do filme estúpido que assistia, que odiara e que, por todos os diabos, estava acabando sem final feliz. Catso.

domingo, 4 de abril de 2010

Entrevista: Manoel Ricardo de Lima



imagem: divulgação


Manoel Ricardo de Lima, quando senta e cruza as pernas para falar de poesia, lança ao ar o que sabe de um jeito só dele. A construção da linha de pensar é feita com as mãos e a voz falando juntas – para os ouvidos de quem o vê, segue devagar a delicadeza. Movimentos e som desenham o que diz num quadro imaginário logo à frente. Nascido em Parnaíba-PI, Manoel é escritor, crítico literário, poeta e professor. Um tanto de coisas, que nem ele sabe como cabem todas numa vida só.
Publicou Embrulho (7Letras), Falas Inacabadas, com Elida Tessler (Tomo Editorial), Entre Percurso e Vanguarda – alguma poesia de P. Leminski (Annablume), As Mãos (7Letras), outra manhã, com Aníbal Cristobo e Eduardo Frota (Dragão do Mar), As Mãos/ The Hands, com tradução de Sérgio Bessa (Lumme Editor), 55 Começos (Editora da Casa) e quando todos os acidentes acontecem (7Letras).


Patrícia Galelli: Em que momento você sentiu que a Literatura faria parte de sua vida? Qual a intensidade dessa presença?

Manoel Ricardo de Lima: Não sei dizer isso, com precisão. Mas desde menino – por conta das histórias em quadrinhos – entrei em contato com um certo universo de imaginação, que mesmo precário de certa maneira, é muito rico em vários outros desdobramentos. E sempre ouvi muitas histórias e não sei bem porque sempre tive uma atenção dobrada para ouvir histórias, uma atenção que é também distraída, aparentemente, porque tenho uma inquietação constante. E aí, sempre acho que tem a ver um pouco com isso. Quanto à intensidade desta presença nunca consigo estabelecer uma medida. Penso que, como tudo nesta vida, há impasses de amor e ódio (ódio que não deixa de ser também um desajuste amoroso), talvez assim uma presença ausente, uma falta, uma lacuna ou um buraco, para ser mais firme com a imagem. Mas é intenso demais sim, não saberia fazer outra coisa, nem me mover noutro lugar que não numa travessura do pensamento também pela literatura. Mas a literatura é, para mim, um também; ela não mora sozinha por aqui.

Patrícia Galelli: Como foi sua trajetória literária do Piauí a Santa Catarina?

Manoel Ricardo de Lima: Não tenho trajetória literária, ao menos não queria ter. Quero muito mais que leiam o meu trabalho como um percurso de travessia entre várias coisas que me interessam, do poema até a linha, da pintura até a imagem de síntese etc. A saída do Piauí foi uma estratégia de sobrevivência, como as viagens todas para vários lugares, como morar fixo em Fortaleza por um tempo, como ir embora de lá, como ter vindo pra Florianópolis, como desejar muito ir embora daqui agora. Tudo uma questão de sobrevivência, de ventilação, de deriva, para o pensamento, para o corpo, para a alma, para nada, muitas vezes. Meus livros e o meu trabalho não tem a ver diretamente com estas topografias, mas sim, e muito mais, com o deslocamento de qualquer idéia de uma topografia fixa.

Patrícia Galelli: De que forma a academia interfere em ou contribui com suas produções?

Manoel Ricardo de Lima: Já interferiu mais, hoje penso a academia como um lugar estranho, lugar que tem uma gerência de negociata estranhíssima. Mas a forma de tomar um sentido ali, atribuir ao fato de estar nela como um vento ou uma visita, para incomodar a negociata, me é muito agradável. Daí, gosto muito de ser professor, sei que sou professor, e não tem como separar a vida em duas ou três, o que é uma pena, porque deveria ter como, mas não tem. Sempre imaginei ser 15 ou 20 ao mesmo tempo para dar conta de todos os meus desejos e emperros. Mas enfim, o fato é que a leitura crítica que a academia me sugere como proposição vai para o meu trabalho com a mesma força que o meu trabalho entra nas minhas perspectivas por dentro da academia, como uma coisa só, separada, mas um mesmo projeto de atuação política no mundo.

Patrícia Galelli: Escritor de poemas, prosas, ensaios. De que forma você sente cada gênero?

Manoel Ricardo de Lima: O gênero me interessa muito pouco, como tal. O meu problema é com a linha, que vem de um estatuto natural, primitivo, ancestral, e depois entra o livro, como uma dobra plissada. Daí, tanto faz, o que me interessa é como posso me mover por esta linha dobrada e provocar nesta linha uma contaminação de afetos, de formas de fazer e maneiras de mostrar um trabalho. O problema é que nosso país é muito careta, quase inteiramente, e tudo ainda é muito separadinho.

Patrícia Galelli: Você tem medo de errar?

Manoel Ricardo de Lima: Eu sempre prefiro o erro, mais de uma vez até. Em tudo.

Patrícia Galelli: Como você sente o processo que se atravessa entre os rabiscos e a publicação?

Manoel Ricardo de Lima: Ah, isso é o bacana do lance de pensar um trabalho, o sumiço dele como princípio e o que ele se torna quando aparece como objeto. E fica só nisso, o objeto. O que você chama de rabisco some, por completo, apago tudo. E isto é uma alegria, meus trabalhos dependem de uma alegria intensa, minha, para que eles sejam feitos.

Patrícia Galelli: Do que você gostava de brincar quando era criança?

Manoel Ricardo de Lima: Cresci em cidade pequena, daí podia tanto subir em árvore, correr pra todo lugar, jogar futebol na rua em qualquer terreno baldio (o que fiz muito e exageradamente) ou ficar no quarto com aqueles pequenos bonecos de cowboy e meu forte apache imaginando um truque de fuga para outro mundo. À noite, corria num esconde-esconde ou ficava numa conversa frouxa em qualquer banco da pracinha mais próxima com os amigos de infância. Não sei mais deles, nenhum, a infância é de fato uma coisa que ficou lá, quieta, guardada, ela termina de uma vez. E isto muitas vezes me parece muito ruim.

Patrícia Galelli: Algum novo projeto de livro está em desenvolvimento?

Manoel Ricardo de Lima: Sempre há, um ou vários. Um amigo que trabalha com vídeo e artes visuais, o Alexandre Veras, sempre diz que o importante é ter projetos, não importa muito se eles irão se realizar. Então, projeto sempre há, se eles vão existir para os outros, importa muito pouco.