sexta-feira, 13 de março de 2009

Desencontros que foram

Ausência
.patrícia
.
.
O baralho cruzava as pernas outra vez. Desalinhava pêlos, reprimia fígado - desequilibrava na bacia do esqueleto. Era um frio de corroer o presente daquele inverno de antes – numa Rússia imaginada, vinda de uma noção pouco configurada de fuga. Congelava as ações e, num impulso maternal de se humanizar, a ação era jogar um lençol sobre as verdades.
“Quem era ele” pode ser a mania de disparidade para o que ele vem sendo. Ele não vem hoje.
Soube que sua vida se tornou a metáfora que o medo aflora para explicar suas vertígens. O medo é tão insano, tão vulnerável quanto critérios de julgamento sobre o que deve sair no jornal. Sinto falta daquela minha literatura, que era só discrepância pessoal, metidez, terapia. Mas que era nítida, um começo de possibilidades sem fim de finais, aos que tinham mesma ausência de grau que eu - não enxergávamos as mesmas coisas. Ele sente falta de mim.
Mas agora já foi.
.
.
.
Paciência
Gustav Trevisnk
.
.
Então eu fico sentado, analisando as cartas em minha mão. A neve não para lá fora, mas a roda continua a girar aqui dentro.
Quando bate às 4 horas, todos os outros demais presos deixam suas filhas, seus filhos, suas mulheres, apenas para voltar a suas celas e esperar mais uma semana, olhando a parede, esperando pela oportunidade de ver a família outra vez.
Às 4 horas, ainda estou sentado, olhando para o relógio na parede, os próprios guardas olham para nosso seleto e pequeno grupo, balançando a cabeça em um tom de negação e sinto, no fundo. De consolação, entrego o baralho. Os outros três detentos que não tem familia se retiram para suas celas, e ficam olhando para a parede. Apenas esperando, uma semana, sem dizer nada, sem sair da cela com o sonho infantil de que alguém virá na próxima semana. Seus filhos, sua mulher, e até seus pais.
Mas, no fundo, todos querem apenas mais uma partida de baralho.
Eu passo todo esse tempo lendo o que me trazem da biblioteca, sempre rezando (todas as semanas), para me entregarem algo que não seja mais um manual de contabilidade, ou algum livro didático sobre matemática aplicada. Passamos a maior parte do dia em nossas celas, sem nos comunicar, saindo apenas de manhã para exercitar, e praticar algum esporte. O resto do tempo é apenas armaguriante espera que, com sorte, vai durar mais alguns anos.
Um dia conheci um preso que passava a maior parte do tempo pintando desenhos em sua parede, apenas com uma tinta vermelha que ele tirava do uniforme. Tive a oportunidade de checar as pequenas obras primas de meu camarada, antes dele ser mandado para a forca. Eram desenhos de tamanho médio, dragões e outros bichos mitológicos, indentifiquei até o que seria a baba yaga na parede fumando um cachimbo e montada em um almofariz. Temendo fitar os descontentes olhos da senhora, ouvi apenas o sussurro vindo de sua boca sem dentes, no qual eu apenas podia entender.
Que seria o próximo.

segunda-feira, 2 de março de 2009

A máquina vermelha


Afinando o sangue, em processo de decantação das ilusões de emergência, pairou sobre o corpo de Ana a máquina vermelha das soluções. Uma torneira acoplada logo acima do umbigo, posta milimetricamente calculada pelas mãos mecânicas, foi aberta neste instante – antes de ser cimentada. Alguns vazamentos não poderiam ser evitados. Ana teve convulsões.
Ana, que não sabia o que o artigo das escolhas por escolas incertas queria propor, tomou anfetamina pra não morrer. Da dor que a fazia desconfiar que não havia morrido, saiam esferas de linha tênue enaltecendo as suas limitações.
Era vestígio de quase-ideias todo o tempo da operação, vindo nos momentos todos. Ana podia ser aberta pela barriga, logo acima do umbigo, e se livrar – se salvar. Tinha sangue fino, que passava no filtro das más considerações sem ser barrado. Mas não sabia para onde ir – aonde iria cair.

Ana se amorteceu toda. Ana amoleceu.

Ana vazou, tomou anfetamina e soube que havia morrido quando a máquina vermelha fechou a torneira e ela não sentiu dor alguma.