segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Borges e eu

Ao outro, a Borges, é que acontecem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, na contemplação do arco de um saguão e da cancela; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome num trio de professores ou num dicionário biográfico. Agra­dam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século XVIII, as etimologias, o sabor do café e a prosa de Stevenson; o outro comunga dessas preferências, mas de um modo vaidoso que as converte em atribu­tos de um actor. Seria exagerado afirmar que a nossa relação é hostil; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa urdir a sua literatura, e essa literatura justifica-me. Não me custa confessar que conseguiu certas páginas válidas, mas essas páginas não me podem salvar, talvez porque o bom já não seja de alguém, nem sequer do outro, mas da linguagem ou da tradição. Quanto ao mais, estou destinado a perder-me definitivamen­te, e só algum instante de mim poderá sobreviver no outro. Pouco a pouco vou-lhe cedendo tudo, ainda que me conste o seu perverso hábito de falsificar e magnificar. Espinosa entendeu que todas as coisas querem perseverar no seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra, e o tigre um tigre. Eu hei-de ficar em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas reconheço-me menos nos seus livros do que em muitos outros ou no laborioso toque de uma viola. Há anos tratei de me livrar dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de Borges e terei de imaginar outras coisas. Assim, a minha vida é uma fuga e tudo perco, tudo é do esquecimento ou do outro.
Não sei qual dos dois escreve esta página.
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Borges, Jorge Luis, O fazedor (Obras Completas Vol.II), Lisboa, Teorema.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Uma prévia da finalidade do chapéu



Na imagem: Soren Kierkegaard

1.
Constituído de uma membrana esticada percutida, tirada de algum bicho andante triste por aí, a caixa cilíndrica de ressonância cuida de guardar as pancadas que vem de dentro para fora, ou de fora para dentro com a característica de entrar, bater e voltar – por isso a impressão do movimento primeiro. Parece complicado por ser uma questão inversa, mas tente ser uma pessoa prestativa à descrição.

1.1
O cérebro, de tanto ser golpeado por agentes externos, do tipo porcelanas que gritam semblantes que pisam prazos que espremem, passou lentamente a mudar a forma de gosma cinzenta para uma espécie de tambor que emite som incessante às veias, esses canaizinhos espalhados pelo corpo todo e que às vezes (quando há alguma pedra pelo caminho) tratam de tirar o sossego do indivíduo. A membrana esticada percutida dessa espécie de tambor pode ser constituída por diversos materiais, uns mais fortes, outros molengas, embora todos trabalhem na função de permanecerem ali, cuidando para que o couro cabeludo não queime, ou pegue sereno.

1.2
Em duas questões pontuais, a mutação da gosma cinzenta se difere dos tambores em geral. Uma, a ausência total de baquetas para fazer o barulho. Outra, por, ao invés das alças para o colo, ter acoplado como continuação da membrana, uma aba – que priva os olhos dos ataques de raios ultravioletas, além do ar um tanto mais misterioso por lembrar, simbolicamente, detetives de outrora.

2.
Quando, por questão de amor às causas perdidas, a ilusão trazida pelas palavras voltar, a continuação da história há de seguir por onde aponta o nariz.

2.1
Parece complicado por ser uma questão inversa, mas tente ser uma pessoa prestativa à descrição.