quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Tese entreaberta

imagem: .patrícia


Esclarecidos eram os que saíam pelas ruas, iluminando as intenções com velas de sete dias. Ele não. Não sabia o que queria. Menos um dia, pensou – e pensava nela. Deu cem passos pela madrugada rastejada, de pés pelados e pijamas. Voltou. Arriscava mais um tropeço, ou camuflava o desejo entre os porta-jóias dos hormônios suicidas? Consumido pela dúvida, entrou em casa.
Apontou o lápis. Achava, apesar do aspecto alienado, que nadava na tecnologia vigente. Embrulhava idéias com papel de segunda, quase parecido com papel higiênico. Entre o tempo de sentar, de pensar e de escrever, a ponta quebrou pela quarta vez. Não era por falta de dinheiro. Quebrou de novo. Tremeu de uma raiva barata – cortesia de nervos velhos de um corpo cansado. A madeira, podre que era, não suportava ser cúmplice das merdas que ele escrevia.
E ela... – pensava. Não escreveu nada. E escrevia, toda noite, fruto de uma inspiração companheira de bar, sinuca e sucos de acerola. Ele não era bem visto. Não bebia. Não caía. Não usava porcaria alguma. Sempre exigia da mulher do Volmir suco feito na hora. Acreditava em propriedades curativas da fruta. Mas não sabia que doença curava.
Sem muitos anexos, optou por uma de perto – que era para não gastar com gasolina, nem pernas. Flores? Não. Tinha pegada forte, e bastava.

sábado, 20 de setembro de 2008

[...]

- Hélène!

Ele sufocou um grito. As veias estão inchadas, a boca entreaberta. Está dormindo; esqueceu que ia morrer. Sabia-o, há pouco; está agora morrendo e o ignora. Não durma, acorde! Ele se inclinou. Teria desejado tomá-la pelos ombros, sacudi-la, suplicar-lhe. Consegue-se reanimar uma chama que vacila, soprando sobre ela com todas as forças. Mas não existe uma passagem entre minha boca e sua vida; somente ela seria capaz de se erguer de novo a luz. Hélène! Ela ainda tem um nome: não será mais possível chama-la? A respiração sobe com esforço dos pulmões para os lábios, desce rangendo dos lábios para os pulmões, a vida ofega e se esforça, contudo está ainda intacta; permanecerá intacta até o ultimo instante; por que não a emprega você noutra coisa que não seja morrer? Cada pulsar de seu coração a próxima morte. Pare! Seu coração continua a bater, inexorável; quando parar, ela já estará morta; será tarde demais. Pare imediatamente! Pare de morrer!

Ela abriu os olhos; ele a tomou nos braços. Aqueles olhos abertos já não enxergavam! Hélène! Ela já não ouvia.... Algo permanece que não está ainda ausente de si mesmo mas já ausente da terra ausente de mim. Estes olhos são ainda um olhar, um olhar congelado que já não é nenhum olhar. A respiração cessou. Ela disse: estou feliz por você estar aí. Mas eu não estou aqui; sei que alguma coisa está se passando mas não posso presenciá-la. Não está se passando aqui, nem em parte alguma; está além de toda presença. Ela respira ainda uma vez; seus olhos se embaçam; o mundo se desprende dela, desmorona-se; ela contudo, não desliza para fora do mundo; é no seio do mundo que ela se torna esta morta que eu tenho em meus braços. Um ricto distende a comissura de seus lábios. Não há mais olhar. Ele baixou as pálpebras sobre os olhos inertes. Rosto amado, corpo amado. Era sua testa, eram seus lábios. Você me deixou. Mas eu ainda posso amar sua ausência; ela ainda conserva sua imagem, está aqui presente nesta forma imóvel. Fique! Fique comigo....

[...]

por: Simone de Beauvoir, em O Sangue dos Outros, 1945

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Ladrão de coração

Esses dias eu fui roubado. Não levaram nada de valor. Uma agenda velha, anotações sem muita importância, telefones de velhos conhecidos, pessoas que nunca vão ligar mesmo, datas passadas. Levaram algumas lembranças, presentes de despedida. Melhor assim, não gosto de despedidas.
Com o passar do tempo começo a perceber o que realmente perdi. As novas cópias de chaves de casa já não possuem o chaveiro de coração que recebi, de forma meio insegura, das mãos daquele amor. Nunca fui apegado a bens materiais e é gozado sentir falta disso em meio a tanta coisa que se foi. Paro de lamentar e aceito viver sem isso... Mesmo assim, não paro de lembrar a cena, as mãos, o chaveiro, o sorriso. Acabou.
Puxo pela memória, tento mentalizar uma lista do prejuízo. Os livros? Isso é até fácil, já comprei novos, mas, e as dedicatórias açucaradas? Eram tematizadas pelas datas presenteadas ou de acordo com o titulo da publicação.
Lembrei-me agora de um selo colado na agenda, um selo de carta, acho que era de quarenta centavos. Tinha um desenho de uma negrinha de olhos lânguidos, uma negrinha linda. Lembro exatamente da cena. Em meio a bagunça na mochila ela fuçava o conteúdo e puxou a fileira de selo, três ou quatro e começou a observá-los, sem vacilar disse “vou pegar pra mim”, logo depois colou um selo na agenda. Reclamei, alegava que ainda tinha cartas a serem enviadas. Ela perguntou se eu ia ter coragem de colar aquele lindo desenho em uma carta. Na ocasião não tinha entendido, acho que só meses depois é que fui compreender o que dizia. Abri a agenda velha e dei de cara com a linda negrinha me olhando. Lembrei então da cena e do dialogo, lembrei daquela noite, da música, das longas conversas, foi uma boa lembrança. Levaram a negrinha...
(o texto tem dois finais)


1.
Levaram a negrinha... È talvez os registros materiais de boas horas não sejam duráveis, mas quero acreditar que ainda possa me nutrir do que ainda resta.
Quem pode cotar o valor de uma boa lembrança? Quero guardar todas as boas lembranças, apenas elas. Esses dias fui roubado, mas não levaram nada de valor. Tenho medo de no futuro, por desleixo ou falta de atenção, deixar perder-se no tempo um bom momento vivido. Podem vir seus covardes, podem levar tudo que não tenho, mas não levarão meus únicos bens. Minhas lembranças.

2.
Levaram a negrinha... Tento agora lembrar o que sentia por aquela pessoa, o motivo pelo qual a lembrança do selo era tão especial. Penso, penso, mas não encontro a resposta. Penso mais um pouco e acabo percebendo que acabei idealizando alguns momentos, ou talvez tenha confundido com qualquer outra ocasião. Tento lembrar do sorrio, do brilho nos olhos, mas tudo é nebuloso. Tremo. Tal foi o choque da constatação: MALDITOS COVARDES! LEVARAM ATÉ MINHAS LEMBRANÇAS...



imagem: cena do Impire Inland