sábado, 30 de agosto de 2008

Relações mediadas II

Conheci Beatriz pela internet, gostávamos de falar de música e amenidades, uma garota legal. Apresentei-a, virtualmente, a Daniel, meu amigo de infância de quem costumava ver quase todos os dias, durante anos. O menino - porque éramos meninos nessa época, é bom mencionar – deu-se muito bem com Beatriz, digo, eles tinham muitas afinidades e encaravam a vida com o mesmo entusiasmo. Depois de algum tempo soube que estavam namorando.

Ela residia na cidade do Rio de Janeiro, ele quase no interior de São Paulo, distâncias que eram quebradas com o uso de internet e do telefone.

Trocavam presentes nos aniversários e datas especiais, livros com longas dedicatórias, cds lançamento das bandas prediletas, cartas de amor. Mas não demorou muito tempo para o relacionamento perder o encanto.

Meses depois de oficializado o divórcio virtual, Beatriz veio a passeio à São Paulo. Os dois marcaram um encontro e pela primeira vez puderam olhar-se fora das telas.

O encontro foi em uma estação do metrô. No horário marcado reconheceram-se em meio à multidão. Abriram seus largos sorrisos, e se abraçaram longamente. Passearam, conversaram e sorriram muito. O dia passou sem que eles percebessem. O inicio da noite despediram-se com um beijo rosto e rumaram cada qual para sua terra.

Eles falam-se até hoje.

Quando o Amor Acaba... #3



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quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Milan Kundera

Nada nos garante que Deus desejasse realmente que o homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder que usurpou da vaca e do cavalo. O direito de matar um veado ou uma vaca é a única coisa sobre a qual a humanidade inteira manifesta acordo unânime, mesmo durante as guerras mais sangrentas.
Esse direito nos parece natural porque somos nós que estamos no alto da hierarquia. Mas bastaria que um terceiro entrasse no jogo, por exemplo, um visitante de outro planeta a quem Deus tivesse dito: “Tu reinarás sobre as criaturas de todas as outras estrelas”, para que toda a evidência do Gênese fosse posta em dúvida. O homem atrelado à carroça de um marciano – eventualmente grelhado no espeto por um habitante da Via-Láctea – talvez se lembrasse da costeleta de vitela que tinha o hábito de cortar em seu prato. Pediria então ( tarde demais ) desculpas à vaca.
( Trecho tirado do livro "A insustentável leveza do ser" )

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Voejo de estar

imagem: .patrícia

Para mim, ele existe. Dizem que não. Que é coisa de gente metida a inventora de palavras. De gente que não sabe expressar, e suspira. Não me convencem. E bom que não tentaram.
Pois que é o mais belo de todos.

É um verbo. O verbo? Sim, daquelas palavras dançarinas, que exprimem e se exibem em ação, “qualidade ou existência”. Que enrolam, desafiam, mexem com, repetem excertos, mostram, transpiram, arrebentam. E conseguem, nas convulsões mais cruéis da língua, salvar o vocabulário de gentes como eu.

É daquele tipo de palavra que dá a elocução agradável do “matar” da fome. Do “tocar” das texturas. Do “doar” de sentires, percepções, mentiras, canções. Do “iludir” da sobrevida. Que seja. E transfigura tanto, tanto, que o “contar” do infinito perde a graça diante da corrida contra o fim. E sempre perde, eu sei.

Instanciar. É quando o tempo se vai e continuo... nem sei. O tempo se esvazia devagar e a percepção de tal se afunda no sopro que já foi. Instanciar é o que mais dança, porque é o que mais fica parado nesta “vida dura” de palavra de ação. Para mim, faz que existe - e instancio. Na garagem, quando sempre às onze da noite, a vizinha acende a luz do banheiro. Eu fico. E o tempo vai. Não abre a janelinha basculante, mas liga o chuveiro. Instancio, espiando o que poderia. E não pôde. Ou o vizinho ou a criança, ou só o descaso com a água do mundo. E não existe palavra, só instante. Que passa, parado. Se vai e não volta nunca mais.

Dizem que não.

Mentiram. Há de existir e deve já ser usado. Ousado? Deve ter percorrido emergências voláteis, dessas iguais as de gentes como eu. Que silencia, quando não há nem suspiro, nem respiro, nem ausência. Há, como exemplo figurado, minha caixinha de guardar o carro - me protegendo dos pensamentos que estão para nascer.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Resgate

foto: Mario Rui Feliciani

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venta sutilezas pelas frestas.
motivos que não colam palavras,
descolorem pretensões.

minha fome transcende águas pardas.
é por amor.

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quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Bem vinda a meu inferno

Ele a observa no metrô. As luzes antigas fazem um efeito strobol, piscam rapidamente. No vagão tudo é lento. Ela sabe que ele a está olhando. Seu olhar sinistro a excita. Eles desembarcam na mesma estação. Olham-se por instantes, ele vira para ir embora. Ela deixa cair os livros de química que carrega. Ele não sabe o que fazer, ou passa por cima, ou baixa para recolher. Baixa, e ela também. Ela é linda. Ele se apaixona.
Conversam sem jeito. Ela é meiga e delicada, fala de sua vida, dos sonhos. Ele a ouve e acha tudo lindo, acompanha seus lábios palavra por palavra, quando não, está vidrado em seus olhos, são verdes e brilhantes. Ele pensa no passado.
O tempo passa, a plataforma está vazia. Os dois se calam por um instante. O silêncio é quebrado pelo barulho do trem chegando. Eles se aproximam, é a hora do beijo. Ele a pega pelo braço e a arremessa sobre a linha do trem. Vira-se e vai embora.
Ele não quer se apaixonar.

Bem vinda a meu inferno
Acenda a vela
Enquanto o mundo acaba

Como fui ficar assim
Esperando
O dia começar

Escuto passos
no escuro
escuto versos

Procuro te odiar
Procuro me afastar de você

O meu e teu corpo em chamas
Formam a cópula perfeita

sobrevoam a noite em desamor
são pestes da ilusão
de uma vida sã


Não quero te odiar
Acenda a luz enquanto
O mundo acaba

Não quero te amar
Procuro me afastar de você

Bem vinda a meu inferno
quero me afastar de você

Nunca te amei

Bem vinda a meu inferno
Acenda a luz enquanto
O mundo acaba

Teu mundo acaba na primeira vela
Acenda o inferno

Bem vinda a meu mundo


Escrito para a Música (mi, ré, fá, dó e si) de R. Brosco

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Estilhaço

imagem: .patrícia

Embarcava sem visto pelos quadros da parede. Via o necessário para se perder – viajar em pigmentos, mostruários mensais e agendas do ano passado. Colecionava o que não foi, do que não volta. Descrevia em detalhes folhagens esquecidas de canto. Olhava para as marcas de sapato sujando os pés contínuos do balcão. Percebia os pingos mortos de café com leite das borrifadas desajeitadas de algum idiota, ou de algum problema com a térmica, ou de algum acidente casual movido da simplicidade e insignificância de pegar uma xícara de café, entre um passo e outro, mesa e outra.
Era assim. O olhar se detinha ao fio de cabelo perdido no chão - da secretária, cozinheira, recepcionista, telefonista... ou do office boy. Como se o importante fosse não por onde o rato passa, mas os cantos que foge, que se esconde. O não visto era o que via. E não via que o trabalho ficava para trás, em meio à percepção desenfreada dos nadas cotidianos.
Um dia, de chão limpo, térmica limpa e memória vaga, foi demitido em meias palavras. Saiu em silêncio.
Não disse adeus. Às 11:46, ia atravessar a rua. Atravessar para o outro lado – o dos desempregados. Viu quando um grilo marrom acinzentado pulou no seu sapato rachado e sem brilho. Mas não viu o carro.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Aviso


Avisou que iria. Foi um aviso assim: sorriso de abrir os lábios e pôr os dentes pro mundo. Nada disse. Nada explicou. Nada pensou. Talvez esteja levando pra sempre o que viu ao fazer do rosto um novo desenho antes de se ir. Uma imagem: um sofá velho e acabado, um abajur que não funciona, um imenso tapete, que cobre metade da sala, puído, uma estante com alguns livros: Poe, Camus, Baudelaire, Quintana, Kafka. Ah!, e Florbela! Isso tudo, e eu. Mas que importância haveria eu de ter diante do mundo? Além da porta há flores e risos, e perfumes deliciosos, e muito mais livros, e coisas novas, e a todo instante há coisas novas e sempre que se encontra algumas, outras, muitas outras aparecem. E vozes novas e novos corpos, e tudo isso pode ser renovado e remoçado da noite pro dia, e do dia pra noite. E tudo será diferente de hoje amanhã. É fácil sair assim. Um sorriso de mudar as linhas do rosto. Nenhuma explicação, uma olhadela no entorno, pra ver se tudo está como sempre esteve, um giro nos calcanhares, abrir e fechar a porta e deixar o vento levar. É bom estar lá fora. Tem um mundo inteiro pra se visitar, ruas e mais ruas pra caminhar, correr e brincar. E uma infinidade de pessoas diferentes pra se ver e com quem falar, com quem querer, com quem transar. Tudo bem! Ele pode ir sem nada dizer, com aquele sorriso besta na cara, mas a porta não ficará fechada. Não, mesmo!
- Ariovaldo, seu filho da puta!, dessa vez você vai levar suas cuecas sujas ou quer que eu jogue no lixo?

por: Rubens Lunge

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Um conto de Marpessa

"Uma borboleta branca"

Com olhos úmidos, o velho observava o nada, parado e frio como um peixe. Havia certa palidez nas coisas, no verde das folhas nas árvores, na parede cinzenta da igreja, no rosto dos passantes ocasionais, nas asas sujas das pombas que bicavam o chão, rodando pela praça à cata de comida. Um ou outro pássaro cantando bem longe, de tempos em tempos. O velho, e o nada, o céu encardido de tristeza, tão morto. Uma angustia funda, uma ferroada, afligia o velho naquele instante. A solidão, a grande distância intransponível, independente da vontade. Quase não podia suportar. Ao redor dele, a mesma igreja, o mesmo sino soando a cada hora, os mesmos idosos solitários. Tarde de domingo. Com o final do dia, as pombas recolhiam-se, fartas. A luz abandonava devagar o céu. Outros velhos levantavam-se e iam, sabe-se lá para onde, ou para quê. Em pouco tempo não havia ninguém na praça além do velho de olhos úmidos. Ninguém, nada, o fim de todas as coisas enquanto o sino anunciava tristemente as seis horas. Quando as badaladas cessaram, e quando a última delas terminou de ecoar, o velho estava mais só do que jamais estivera. Chorou sem lágrimas, gemeu sem palavras, aprisionado nas dobras do tempo, incapaz de qualquer idéia além da desesperança, sentindo nas costas o sopro gelado do vento enquanto as coisas todas fugiam da noite que se aproximava.Então, ele sentiu uma vibração tímida no ar, um deslocamento no espaço, quase como se não fosse real. Abriu bem os olhos: era uma borboleta branca, pequena e tonta, que voejava sozinha pela praça. Talvez tenha sido atraída pelo calor do corpo do velho; começou a dar voltas em torno dele, atrapalhada, como se fosse setembro. O velho ficou espantado em ver aquela borboleta solitária, dançando inutilmente. E dela não se desprendia nenhum som, nem mesmo do bater de suas asas. O velho chegou a gostar. Achou-a até bonita. Depois teve raiva, porque ficou pensando que talvez – somente talvez – ela poderia ser a responsável por aquela quietude pesada e obscura que o rodeava. Em um ser tão pequeno habitaria uma síntese grandiosa do espaço-tempo, como se todos os sons do universo convergissem para ela, que os guardaria, sem saber, no mistério de sua aparição. Era um princípio, e era também um fim, ainda que fosse apenas uma borboleta branca e tola. Um dia, por certo, não haveria mais ninguém além dela, sobrevoando alegremente o fim do mundo.Com um gesto lento, o velho estendeu a mão. A borboleta pousou com suavidade sobre a carne que lhe era oferecida de modo tão gentil. Com a outra mão, o velho cercou a borboleta. Apanhou-a. Ela permaneceu imóvel em seu pavor. Ele olhou-a de perto, muito de perto. Cheirou-a, sentiu seu peso que era nada, viu manchas amarelas, minúsculas, em suas asas brancas. E enfiou-a na boca. Mastigou-a, os olhos úmidos, o rosto ferido de lágrimas. Desse modo, descoberto o verdadeiro sabor do silêncio – que era de pó e pedra - , o velho levantou-se e partiu. Para onde, e para quê, não se sabe.