quarta-feira, 30 de julho de 2008

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Fotografia


"Análise

Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo."

Fernando Pessoa, 1911


Os olhos costumam ser o espelho da alma. Vistos de perto, são capazes de dizer muito do que se imagina, vitrine permeável da essência do ser. Ultrapassar esta fronteira vítrea é entender aquilo que passa a quem se olha, é pedir livre permissão a postar-se como o observador exclusivo, é despir a veste do observado.

Os espelhos não são bastante para olhar o próprio olhar. Posto que espelhos, é apenas imagem refletida. Mas não importa o olhar-se, e sim olhar o próprio olhar, o que se vê e da forma como se vê. A abstração dilui-se então em cores distribuídas na paleta, e elas dançam, compõem a imagem, fazem caretas sarcásticas ou sorrisos convidativos. É a porta que se abre, é a casa que se sente.

Assim andava pelas ruas da cidade, como uma lente móvel atraída pelas cores, texturas e movimentos ao redor. Parava o olhar aos mínimos detalhes despercebidos pela maioria dos olhos. Registrava espetáculos dançantes das folhas secas levadas pelo vento, dos passos em marcha ritmada da jornada diária, dos pés, dos pisos, dos tons impressionistas formados pelo gradiente perfeito do azul no céu, dos rastros espectrais de objetos apressados, dos sujos contrastes do meio fio.

Na retina impregnavam-se tais imagens, num deslumbrante acervo, que lembrava todos os dias antes de dormir. Sentia-se aliviado, como se a nostalgia pairasse sempre no ciclo temporal que é o dia, o único que importava. A felicidade marcava os vincos da face quando olhava o ventilador de teto a girar sobre seu corpo, sozinho na cama. E dele rotações representadas pela suave penumbra sobre os olhos, espirais de emoções. Pensou como seria se tais imagens fossem reveladas, se fosse possível registrar em fotografias o que viu durante o dia. Poderia apreciá-las a qualquer momento, rememorar instantes, percepções.

Comprou uma câmera. No dia seguinte, empunhada diante dos olhos, saiu pelas mesmas ruas que sempre circulou, procurou as mesmas faces que sempre o atraíram, deixou-se admirar pelas mesmas cores que sempre reluziram diante de si. Cada disparo preenchia uma lacuna adormecida há séculos, a satisfação icástica que impregnava-se como cristais de prata num papel fotográfico. Era o mundo diante de sua lente. Nada o escapava.

Na quarta rua em que passava, tão entorpecido pelas lancinantes formas urbanas, deparou-se com um enorme espelho. Viu-se fotografando. Como uma estátua perdida, exposta num lugar errado, fora do contexto da curadoria, desejou ser invisível ou um ente diáfano com livre circulação. Talvez assim o fosse, já que o refletido no grande espelho era nada mais que intocáveis transeuntes apressados de expressões cerradas. Porém quem o intimidava era esta mesma estátua deslocada, de olhar direcionado ao dele próprio. Afastou a câmera da face, correu-lhe a sensação de baque, eriçou-lhe os pêlos, corroendo as estruturas de mármore que compõem sua alma.

Sentiu-se estranho ao notar que, mesmo se os cacos desmoronassem sobre a calçada, juntando-se ao lixo numa mixórdia deserdada, tudo continuaria da mesma forma de sempre. E logo por esta malfadada torre inconveniente de observação e seu intento em revelar fotografias do intocável dia-a-dia. Quem era aquele indivíduo com pretensão de capturar o sentido natural das coisas?

Sentiu-se pequenino, mas não resistiu aos grunhidos dos pombos sobre os fios contrastantes ao céu anil. Levantou a máquina e, ao pressionar o botão, um velho com vincos profundos na face e barba cinzenta o esbarrou, num brusco solavanco que abalou a tênue estrutura de mármore. O xingamento deferido pelo velho terminou por rompê-la. Desmoronaram os cacos da torre de observação no meio das vias, pedregulhos interferentes ao tráfego. Era demais para ele.

Preferiu guardar a máquina. Como resposta aos conflitos, concluiu que não nasceu com dom para fotografia, pesando-lhe o fardo de fotógrafo invasor da realidade, paparazzo da natureza. Mas não abandonou o costume de observar com os próprios olhos, agora com a cicatriz da pequenez diante dos fatores do mundo. Era como se a torre de observação reduzisse de tamanho, com a altivez de um naco de grama no pasto extenso.

Sentado na praça no banco cinza de concreto e textura áspera, olhava à sua volta o verde mal capinado, o chafariz poluído refletindo as silhuetas dos prédios, os corpos cheios de sono cobertos de panos rudes. A admiração tornou-se amarga. Percorria com a palma da mão o concreto do banco, como se tentasse capturar, num processo osmótico, aquilo que o rodeava. Correu-lhe uma lágrima na face. Sentiu-se inútil.

No dia seguinte, trancou-se em casa, no quarto escuro. Não queria ver nada. Porém não o escapavam as imagens captadas durante o dia. Inconsciente, organizava cada uma delas mentalmente, num invisível portifólio.

Esta noite não fechou os olhos, apenas olhava a escuridão, como um farol quebrado.

O sol raiou pela janela e viu-se obrigado a levantar. No caminho ao banheiro, percebeu um envelope no chão, fechado, deixado pelo vão da porta do apartamento. Pegou, não notou remetente algum. Ao abrir, deparou-se com fotografias. Incrivelmente, eram as mesmas imagens que captou com o olhar nos últimos dias. Pasmado, não pôde deixar de se surpreender com a singeleza e naturalidade das imagens. Eram de diversos tipos, a silhueta negra do pombo contínua aos fios elétricos onde pousava, contrastando ao anil do céu, os vincos enrugados do rosto do velho que passava, os pés sujos, em close, dos mendigos que dormiam sob cobertores rudes e curtos, a tranqüilidade conformada do lago sujo, onde refletiam-se as silhuetas dos prédios. Contudo, havia um atenuante: todas eram melancólicas, de ar triste, soturno. Lembrou-se da véspera, quando, sentado na praça, uma gota de lágrima percorreu-lhe o rosto; sentiu-se novamente um nada.

Eram lindas fotos, comparadas às consagradas de poucos nomes da fotografia que ele conhecia. Estava encantado. Perguntou-se como era possível revelar o que viu, da mesma forma em que outrora havia desejado. Pensou em pendurar algumas num quadro, mas não passava de lapsos de euforia. Não tinha coragem de mostrar a ninguém as fotografias. Era seu olhar que reconhecia ali, e angustiava-se por se notar tão insignificante quanto no momento em que o registro foi feito. A busca inconsciente pelo próprio olhar havia terminado até o momento, e o revelou melancólico. Guardou todas as fotografias numa caixa.

Todos os dias, um novo envelope chegava, com os registros do dia anterior. O sentimento era o mesmo, de admiração e resignação. Colocava tudo na caixa, escondida num baú. Às vezes, antes de dormir, pegava as fotos, olhava uma por uma, relembrando-se do momento em que, sozinho, compreendia o mundo ao redor. Era um mundo melancólico.

Passaram-se anos, décadas. Graduou-se como engenheiro, casado e três filhos bem criados. Das fotografias de família expostas nas estantes da sala, nenhuma foi tirada por ele. Jamais pegou uma câmera na mão desde o dia em que se viu fotografando num espelho da rua.

Morreu não muito idoso, taciturno, melancólico.


Décadas depois, a exposição da Galeria de Artes reunia um acervo fotográfico que percorreu quatro cidades. Mais de duzentas visitas diárias, e com curadoria da filha do autor das fotografias, que também é fotógrafa.

"Só depois que meu pai faleceu descobrimos uma caixa com todo este acervo. Fiquei impressionada com o que vi. Acho que estas fotos foram tiradas como passatempo em sua juventude. Depois que casou devia ter se cansado."

Ela revelou que nunca viu o pai com uma câmera na mão, e que ele até tinha certa aversão ao ofício.

"Mas ao ver estas fotografias, lembro de meu pai nos momentos de solidão, pensativo. Eu sempre o admirava e tentava imaginar o que se passava por sua cabeça."
por: Pedro Soares

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Lotérica

(...) Só plantei uma vez na vida, quando ainda nem sabia dizer por que plantava. Não foram flores, com aquelas cores de vida melhor um dia. Plantei, no máximo, cinco mudas de alface. É por isso que pergunto por que querem que eu colha coisas no futuro. Uma única vez, e minhas alfaces sequer existem - foram comidas pelo caminho. Pelo caminho mesmo, trituradas e engolidas pela própria trajetória de vegetal. Nada mal, talvez. Também somos devorados pela estrada. Plantei e ainda querem que eu plante mais. Para quê, eu não sei. Que a minha colheita foi um saco, uma miséria resultante em duas descobertas. Uma, que meu estômago não digere alface. Outra, que essa informação foi importante para economizar sal de fruta. Só isso.
“E daí?”, perguntou o terceiro, com cara de quem abomina abobrinhas.
E daí que passaram três senhas e agora é a minha vez.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O pintor

Desfez as respostas tricotadas durante a madrugada. Não disse. Permaneceu calada, enquanto os olhos confessavam o crime. Tentava ouvir o que eu dizia, mas a mente dela congelava hipnotizada no movimento abre e fecha da minha boca. Não ouvia. No mínimo imagina que, para as minhas perguntas, as respostas devam ser as mais convencionais possíveis. Que tipo de babaca ela pensa que eu sou? Negou, tentou inverter a situação e quase se contradisse. Desistiu. Ai, o mal da volição. Fez cara de anjo, me envolveu com gestos de meiguice e ternura. A carne é fraca. Pediu desculpas sinceras... Jurou a eternidade do amor, disse que vai cumprir as promessas. Disse convicta, livre e decidida. Eu sei quando ela diz a verdade. Disse com todas as letras que eu estava certo. Pela primeira vez me deu razão, mesmo sabendo que em todas as outras eu também tinha. Ela fala a verdade. Ela se culpa.
- Você se culpa.
(Três segundos de silêncio). Agora vem dizer que me ama. Passo número um, passo número dois, passo número três. Esse jeito dela me desarma.
- Amo você!
Me envolvo. Ela sai ilesa. Foi falar com a amiga.
...
- Sim, ele acredita. Idiota. Da próxima vez aponto o corvo, para olhar de novo...ai, aquele corpo cheio de tinta...

Resolvido

Fiquei imóvel. A boca do estômago dizia qualquer coisa como “Foda-se, imbecil!”, mas não deixava de sentir a dor que procurava esconder. Não tinha vento. O ar seco ressecava as narinas como se eu tivesse cheirado o pó depositado na estante da sala. A música de fundo tinha cheiro de flor fúnebre, deixada com a entrega de algumas lágrimas ao lado de velas, ao lado de um túmulo. Não condizia com os berros de raiva, que dava o órgão digestivo. Ele estava puto. Antes que jogasse todo o meu almoço e embebedasse o tapete com aquele suco azedo, esvaziei o guarda-roupa e pisei em tudo.
Fiz a mala. Desarrumei. Uma mochila colegial seria suficiente. E foi. Só coloquei o que coube. Cuspi e o mandei embora.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Someone, but who knows?

"Just Me"
Parada naquela rua escura, eu não podia atingir nada, ninguém. Mas poda sentir tudo e, pasmem, entender. Tudo se tornou tão claro na escuridão.Tudo pareceu a mim tão simples. Tudo eu sabia e com tudo eu podia. As horas passando e eu sentindo-as como se fossem minutos. Ali eu era a magnitude. Sentia-me mais alta, mais viva, como nunca havia me sentido na vida...
Mas o efeito passou, mais rápido do que eu desejava e então voltei pra casa, com os mesmos medos e temores de sempre. Tudo voltou a ser como era... Como sempre foi...


De tempos em tempos parar pra pensar
Na grande fraude na qual me tornei
Olhar para a grande massa de pessoas sem escrúpulos
E então perceber que a tênue linha que nos separa
Já se desfez
E perdida, sem rumo,
Rumo ao desconhecido
Com medo, fingindo ser forte
Tento arrancar os espinhos
Das metáforas que tanto eu usei,
Em vão, para tentar explicar
Tudo o que ninguém queria saber
Tudo o que agora cansei de gostar.
Por ela, seja ela quem for.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Insatisfeito

Corre o vento pela cara
Tira roupa e veste o mundo
O imundo que povoa suas costas
Dourando sob o sol absurdo
O giz branco marca onde a vergonha não mostra
Somos filhos do mesmo cinema
Da mesma letra que descreve o fim
Jurei ser eterno,
Mas sou fumaça e a vida continua sem mim
O descaso descansa em um copo num bar...
Expectativas e desespero num mesmo desejo... enfim
Jurei ser eterno,
Mas sou fumaça e a vida continua em mim
Trouxe seus filhos, conduzi firmemente sonhos mundanos
Corrompi moralmente desejos de pano, inflando meu ego
Desisti de estar certo, inscrevi-me pra ser rei
Jurei ser eterno, depois de usado, jurei ser cortês
Cego, em pedaços, fui deus, fui fraco, santo e carrasco...
Escrevi sua luxúria com os dedos cortados numa banheira qualquer
Enfim... desfeito, perfeito, desfecho
Satisfeito, recluso em mim...
Jurei ser eterno,
Mas sou fumaça e a vida continua sem mim
O descaso descansa em um copo num bar...
Expectativas e desespero num mesmo desejo... enfim
Jurei ser eterno,
Mas sou fumaça e a vida continua em mim

por thiago, o augustus

terça-feira, 8 de julho de 2008

SEM HORAS ( 07/07/2008 )

Sub-consciente em colisão
Esse amontoado de idéias retorcidas
Frias, o desastre que a inércia consolida

Jazem natimortas criações
Fetos mutilados de "verdade absoluta"
O disorder que conduz a demenção

Em cada sonho meigo um pesadelo surge
Em cada moralismo uma devassidade ganha luz

Sado, escato, snuff, incesto, dominação,
Ou tudo aquilo que o faça sentir repulsa
Espaço pro Universo em colisão...


Estamos criando uma banda de música, como nossas letras não vão muito além disso aí, quem se interessar em sacrificar seu escrito, por favor mande: brosco_brosco@hotmail.com, O tema único é o seu cotidiano absurdo.

sábado, 5 de julho de 2008

o sabor delicado
do grito


esse sussuro sem vértebra
adentrando o oco da alma


no escuro.

por: josé menin

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Tônicas


Moleque rueiro ainda, já sofria as dores das regras da acentuação pátria.

Seu nome, Mario, constava na certidão sem o sinal da certeza da tônica. Parecia-lhe até que o gênero garantia a pronúncia, pois pouco importava se terminado com “o” ou “a”, o sexo lhe vinha pela sílaba forte, que, se no “i”, caberia à Virgem.

Mas da rua vai-se à escola e Dona Doroty - porque com “y” se não tinha mais “y” no abecedário? ele e o pai enlouqueciam com essas faltas de rigor – lhe ensinou que as paroxítonas terminadas em ditongos crescentes recebiam acento. Só depois concordaria com as regras de acentuação que garantiam relações biunívocas entre grafia e pronúncia, mas só quando aprendeu o significado de “biunívoca”.

No dia em que a adorável, mas exata, Dona Doroty ensinou a regra, ergueu o braço e mandou: “no meu nome não tem acento! o moço do cartório escreveu assim no documento”.

Três broncas imediatas: “no seu nome não há acento, que eu já ensinei o verbo haver para vocês; evite rimar fora da poesia, como em ‘acento’ e ‘documento’; e não é porque um funcionário ignorante um dia errou seu nome que para sempre você vai errar também”.


Sabia que as duas primeiras eram insignificantes, mas o efeito da terceira bronca foi devastador. Desde então, toda vez que escreve o próprio nome, oscila como o pêndulo do relógio-cuco da avó: “obedeço ao cartório ou à D. Doroty?”

por Mario Rui Feliciani


SEM HORAS

Eu poderia morrer a qualquer dia,
Sem que ninguém soubesse o meu nome
Ou viver deprimido, olhar para o espelho, me sentir um idiota...
Eu não amo, eu nem sei o que é isso.
Eu poderia cantar para qualquer um,
Ou marchar pela eternidade,
Mas não haveria nada além, como ruas sem nome são apenas ruas
Eu não amo, eu nem sei o que é isso.
Eu poderia me apaixonar por alguém,
Sentir seu corpo entre meus braços.
E dizer a profundidade do nosso carinho,
Doces mentiras pra manter necessidades
Eu não amo, não sei como é
Então eu vivo deitado nesse sofá
Me impregnando de terrorismos midiáticos
Vendo num comercial de cigarros
Como é fácil ser feliz
Mas eu não fumo
E nem quero o que quer que seja
E lutando pra esse muro cair,
Vejo que estou do lado errado
E vendo esse muro tombado
Sinto que continuo aprisionado
Segundo a noite, eu procuro um outro lado
Talvez numa dessas ruas sem nome,
Num pedaço de papel.
Segunda a noite, ou qualquer outro dia,
Num acidente de carros, colisões cotidianas.
"Segunda a noite" foi escrito há 8 anos...
houveram modificações,
mas na essência ou na falta dela, é isso aí

terça-feira, 1 de julho de 2008

Relações mediadas




*
- Alô?
- Oi, é fulano, lembra de mim?
- Uhum
Silêncio
- Quem bom que ligou.
- Você...
- Você gosta de....
- Nossa, ia te perguntar a mesma coisa. Adoro!

*
- Oi, sou eu, tudo bem?
- Oiii, tudo.
- Leu aquele livro?
- Uhum.
- Gostou?
- Fantástico!
- Que bom, achei que era a sua cara.
- Gostei principalmente daquela parte em que a Ana revela ao marido que diz já saber e pede que ela mantenha as aparências. Acho que não esperava essa reação, sei lá...
- Sua voz é tão bonita, parece música.

*
- Alô?
- Oi, estava esperando você ligar
- Tudo bem?
- Não, briguei aqui em casa, está uma droga. Ninguém me entende.
- Não fique assim, família é assim mesmo, é uma instituição falida.
- Só você me ouve, só você me entende.
- Chegou bem em casa ontem?
- Sim, gostei muito do nosso passeio.

*
- Fulana?
- Oiii, tudo bem?
- Uhum
- Ué, que voz é essa? Tá triste?
- Não, tudo bem... quer dizer mais ou menos. Vai passar.
Silêncio
- Está apaixonado?
- Acertou.
- Ah, quem é? Conta.
- Uma pessoa
- E já falou pra ela?
- Não, acho que estou com medo de não ser aceito.
- Não tenha medo. Talvez ela já esteja gostando de você também.

*

- Alô?
- Oi, sou eu, fulana.
- Oi, estava pensando em você. Saudade.
- Preciso conversar. Não agüento mais minha família. Vou casar com beltrano, quero sair de casa.
- Sério? Calma pensa direito.
- Já pensei muito, mas é o que eu quero fazer agora. Já ta tudo certo, não tem volta.
Silêncio
- Fulana, preciso dizer que te amo.
- Hã! – perde a fala.
- Estava confuso, mas agora tenho certeza. Sei que você está com ele, mas precisava te dizer isso.
- Fulano...- pausa - eu também te amo – perde a fala de novo.
- Calma, não fiquei assim. Eu não quero te cobrar nada.
- Se eu te amo, deveria ficar com você.... isso não está certo.
- Acho que essas coisas acontecem – suspira.
- uhãhãhã – chora
Tu tu tu tu tu tu.

imagem: cena de Mulholland Drive