sábado, 28 de junho de 2008

De dó das paredes

Fingia aconchego montando castelos com caixas vazias de chocolates. Puro tédio lúdico. Uma beleza só vista antes com ele, enquanto a chuva caía. Agora, nem me preocupo em perder o sol por toda vida, permanecendo e permanecendo. O teto já sabe mais de mim que eu mesma. Mas, só as paredes falam. Me contam causos, situações corriqueiras da rotina. As brigas, as ironias. Elas são as beatas da casa. Contam de tudo. Até coisas pequenas, tipo o meu pai comendo uma maçã, esticado no sofá. Coisas que eu não vi, as paredes me contam. De metidas, que meu interesse é pequeno - fofoqueiras que são. E eu mereço também o silêncio das coisas que não falam. Para me concentrar nos castelos, sabe. Mereço o silêncio por direito, entendem? As paredes não calam!
Às vezes, sinto que implantaram na carne dos tijolos, chips provenientes da mais alta tecnologia. E eles gravam o que penso. São eles que fazem as paredes falarem. Elas falam muito. Mas, quando sou eu que penso em falar, eles gravam. Sempre para se protegerem. E não me deixam ser canivete suíço, porque intuem um acesso de raiva meu. E eu sou calma, todo o dia, montando meus castelos no tapete da sala. Assim, sou obrigada a testar a força das facas de cozinha. Pego-as emprestadas da pia. Prometo amor eterno e a pia, burra que só ela, acredita e me dá. Mas são fracas, as facas. Perdem os dentes das serras logo. Isso só acontece porque não me deixam ser canivete suíço. Se não, estariam aconchegadas ao lado das colheres e dos garfos. (Talvez entre eles, para não sentirem frio). Pois que se entendam com a pia, então. Porque preciso rasgar a pele de tinta. Preciso livrar as paredes do mal lingüístico. Do mal literário. Daqueles chips! E faze-las entender que o mundo é mais bonito com projetos arquitetônicos ousados, como os castelos que monto encostados na estante, subindo em trilho até a TV. E risco o azul da parede, devagar, com as facas de cozinha. E nem suspiro, porque é gravado. Eu sinto que sim, e cuido para não pensar, ou pensar pouco – cuido para pensar só em não pensar.
Só paro de raspar a tinta das paredes quando o vento vem e eu tenho que correr para salvar meus castelos. Depois volto. Lamento, e as deixo cicatrizar em baixo dos Band-Aids.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Contracionado

Em meio à peças imóveis, danificadas;
Carcaças velhas de carros que um dia foram
o sonho de alguém...armas de uma grande fuga.
Como essa massa de ferro amontoada,
essa montanha de "vida" desperdiçada,
agora esquece-se de sua cor original...entregue à corrosão.
De uma máquina que fora desenvolvida
pra percorrer e vencer através do dia distâncias,
estradas, países do mundo inteiro,
parece pouco confortável permanecer jogado no pátio de sucatas.
Quer saber como me sinto aqui, no escritório?

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Terceira leva dos Molhados!!!

Tudo passa...

por: Davi Amorim

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A sombra que persegue sem se cansar almeja nos pés, o começo de um detalhe que contorna o seu corpo, enquanto você ensaia uma dança com os ombros e espera chegar ao travesseiro
Encostando sua cabeça sem perder a direção dos olhos
Sabor de álcool
A língua esconde na saliva o gosto do seu corpo mordido por dentes que marca o caminho que a boca percorreu das pegadas de um desejo sublime

Do pescoço ao ombro há um longo caminho onde me perco no seu perfume e me embriago perdendo a noção do tempo, das horas, dos minutos, dos dias e não me canso de contar o ar que você carrega quando respira soprando aos poucos nas costas, nos braços, na pele e absorvo o teu respiro quente que vem da sua boca úmida e despida de graça, alimento minhas mãos do negro veludo dos seus cabelos que o vento sopra durante o dia todo enquanto você ajeita a franja que lhe atrapalha o teu olhar calmo, lento, fundo e cristalino.

Escuto os meus anjos me chamando o dia inteiro e ponho em virgulas as palavras que esqueço, pois, é tão grande o eco que faz que a pedra saltita sem parar quando arremessada pelas suas mãos

Destaque aos bailarinos que tendo a lua seu guia, dão de ombros para o tempo que nos faz pensar nas letras, que nos obriga a ter um novo tropeço, pelos domingos vazios.
Embora trabalho nos desenhos, a palavra impar que me falta, da estratégia que fique compatível quando resolvo ler a cartilha que revela as suas invisíveis entrelinhas

Seu vôo pleno em gravidade com a terra, guarda o sorriso do sol onde na luz que enraíza o instante do seu pouso, e ainda, docemente cai gota de orvalho que respinga como instrumento da chuva que vem acalmar a noite que sonha com o vento que assusta os pássaros.

Tão rara e caprichosa é à noite que me traz o caminho do seu retrato a descida vertiginosa da poesia e do mundo que afoga em prantos a sutileza que define o charme quando você olha para trás e sorri docemente

Canto com o fogo a força que me arrebata as palavras ardentes, vermelhas e luminosas quando persigo em pensamentos o saudoso lábio que me toca reluzente de definições misteriosas, deixa nos pastos a flor que nasce do seu suor e que se mistura as folhagens verdes enquanto caminha a procura da margem que esconde o lago que lhe serve de espelho

Com os dedos toca a água como a caricia leve de uma Vênus que afugenta o teu reflexo em pequenas ondas até alcançar a outra margem onde se espera em pé o seu mergulho para refrescar a essência que mina o corpo quando dança sutilmente o movimento que o braço faz para frente

Escondo em silabas a piedade do seu nome que levo ao coração com a força de um vulcão

Dedicado a Sheila


por: Rodrigo Mota

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Tão bela quanto perigosa

Ela partiu com sua bíblia
E decidiu por outro otário
Ele ficou com sua dúvida
A ver navios em seu aquário

Ela pediu a sua ajuda
Pra atravessar aquele rio
Ele sempre quis ser o seu guia
Mas entrou foi numa fria

Sonhos de dia
Promessas à noite
Mas nada nesse mundo à sacia
Até conseguir seu sonho vermelho
Mas não foi o suficiente

Ela ficou com sua vidinha
À bordo do seu sonho vermelho
E ele ficou com sua lista
De amores incompletos

PASSADO NEGRO
PRESENTE VERMELHO
E O SEU FUTURO É NO ESPELHO

E no fim ele entendeu
E a sua alma no fundo doeu
Entendeu o que queria dizer
“Tão bela quanto perigosa”

por: Sid Geremia

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por: Renata Rodrigues Alves

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pêlo de gato

Há algo em mim que pulsa e pede para ser posto pra fora, algo em palavras, que me sufoca, como sufoca o gato a bola de pêlo do próprio gato presa à sua garganta, as palavras presas em minha garganta me vão sufocar, eu sei, mas não deixo que escapem, não permito que saiam talvez pelo medo, talvez pelo assombroso medo que sinto de tudo. Quero soprá-las pra fora, soltá-las ao vento, a ver se encontram ouvidos que as segurem com as duas mãos cravando-lhes as unhas antes de passá-las adiante; e que se encontrem a contar dos corações, ah, os corações. Mas o medo, ah, o medo do que pode haver de armadilha e surpresa na curva do vento a levá-las a outro lugar, longe, distante. Ainda há muito o que ver, muito o que andar com essa falta de ar pela garganta entalada, sufocada, cheia de palavras e medo. As palavras presas dentro de mim me vão matar.

por: Sâmia

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Circulação forçada de idéias

Resolvi não dizer nada. Resolvi mandar uma resposta, sem resposta. Uma ausência carimbada de coisa alguma. Sinto os assuntos voando baixo e, ao invés de se grudarem aqui, só atrapalham meu silêncio. Não é merecimento, questão de indiferença ou falta de vontade. É ausência, talvez somente ausência. As músicas estão velhas, trancafiadas na minha surdez voluntária. As paisagens são vertigens coloridas com pouca textura, ou quase nada. Talvez o mundo espere uma nova compilação de frases e eu só decepciono, libertando farsas. Tudo um grande amontoado de sistemas baratos que não funcionam, ou, que sempre foram mentiras para novos contos. Uma grande busca de ser um ninguém com coragem para assumir tudo o que já foi, o que vem sendo e o que ainda deixará de ser.

por: Patrícia Galelli

domingo, 15 de junho de 2008

Segunda leva de molhados!

Cultura

por: Patrícia Galelli

ººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººº


Qualquer Um

A vida é um vento sem rumo,
embora as vezes ela aponte a uma direção
nada igual a um plumo
é sempre sem muita precisão

Esse vento as vezes é calmo,
as vezes um furacão, um tornado
melhor quando é uma brisa leve de verão
ou o frio e belo vento do inverno

muitas vezes esse vento leva,
muitas vezes esse vento trás
tão incerto quanto seu conteúdo
são os ventos que fazem isso tudo

As vezes o vento causa destruição
e tudo parece errado
só que isso pode ser uma lição
e nada é por acaso,

assim como o vento...

...o vento incontrolável
que também é instável
e num instante torna
o mal apagável
e o bem incontestável.


por: Guilherme De Bona

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O Outsider

I

distante, urgente
da margem a observar
o novo passado,
o velho presente

dá margem,
interpretar
estático a observar
o lutar das ondas do mar
disformes a desgastar

rochas imóveis
fadadas
ao eterno
repousar

desafia a inércia,
poder da expectativa
e a estética
mesmo estático

não cede,e prossegue
neste estado
filho bastardo de seu tempo,
tempo de maus tratos


II

em sua eterna andança,
aprecia a bela dança
dos pássaros

aparentemente de passos
milimetricamente calculados
ensaiados

bailam no azul profundo,
magistral
para outros, teto do mundo
em interpretação marginal

caminha descalço
sobre areia cortante,
disforme, diante da intempérie
nem tudo o que reluz é vidro,
e mesmo assim fere

III

segue, a maltratar
o vazio de cada dia
o vazio sentido
que empregamos
às nossas vidas

uma pura mentira
um brinde ao medo
ao puro e simples medo
deste nosso momento
indubitavelmente terreno

alguém que dá formas a sentimentos
transforma-os em beleza
diante da cacofonia de lamentos
do nadar contra a correnteza
do medo, do diário tormento

esculpe o viver,
como não proeza
pois herdou do artesão a destreza
de dar vida e formas
a árvores mortas

a um novo amanhecer
que o mundo não vê

diz a si mesmo,
diz a ti, a esmo

O mundo está morto!
e segue em pensamentos, absorto



por: Wagner Miranda

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Ainda sem título


Os soldados
caindo de
pára-quedas
guarda-chuvas
guardanapos: a guerra
começou.

Os gatos conspiram
contra o governo;
querem uma
ditadura de bigodes.

Canhões furam
a noite
do último dia
do mundo.
Não saiam de casa,
crianças: o lar
é o melhor lugar
para morrer.

Os projéteis
entram-nos
pelos ouvidos
e outros
orifícios (na ausência,
cavados por eles
próprios.)

Esqueçam as perdas,
os perdões
que hoje a pele
vale mais.

A manhã nascerá
Vermelha
nessa cidade
do sul.
Poucas roupas
Limpas
Verão
o sol.
E nada mais importa.


Um bêbado (armado
de uma garrafa)
canta
ao som de
um fuzil
assassino – a música
não morre.

por: Jorge Bronzato Jr.


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Astro Desastrado

E o desastrado vivia distraidamente,
Separava arredio o corpo da mente,

Saía dos lugares onde é convidado
Se metia em confusão onde não é chamado,

Tropeçava e caía de cara no chão,
Toda hora que abria a porta da percepção,

Perturbava a cabeça a santa paciência,
Um divã e uma dose pra tanta demência.

Fala o que sempre foi dito
Age como nunca neste mundo
Surpreende com seus absurdos
Quer-se e sempre será querido

Bota uma camisa-de-força
E sai sambando pelas ruas
Despe essa madura alma dura
Veste a fantasia mais tola

Se engasgava ao ingerir o tal maná dos deuses,
Refutava o zen-budismo dos montes chineses.
Refletia-se aos cacos no espatifado espelho,
De pileque, fica sóbrio, e de cara, fica bêbado

Estirado no chão,
Fumou cigarro a varejo
Depois do gozo na cama
E do inesperado beijo

Cada passo que seguia friamente calculado
Por testemunhas oculares de fatos bisbilhotados
Conforme suas faculdades débeis mentais,
Dito sob alucinações de mapas astrais
Tal qual amestrados modelos científicos
Descobertos por pesquisadores dos hospícios

É quase sem querer ou sem querer querendo?
É não pensar em dizer o que não se diz?
É não tentar entender a quê se está tendendo?
É não dizer o pensar num já rompido triz?

Chegou agora do inferno,
Mas já está indo pro céu
Veio com seu novo terno,
Engomado no pinel

Vai pro céu,
Vai pro céu,
Vai pro céu,
Vai pro céu...

por: Pedro Soares

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O que seria do homem se pudesse começar tudo de novo, reescrever sua história em uma terra sem leis ou ordens, onde ninguém ditaria o que fazer ou não, com ninguém se importando com o certo e o errado, seria possível?Seriamos capazes de fazer do novo mundo um lugar melhor? Ou em algum momento nos assustaríamos ao perceber que nos tornamos o que mais tememos, santos e pecadores.

por: Jakson Käfer

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Minutos

A cartela vazia do Genérico me olha. É de um laranja queimado, o verso – de pôr-do-sol. Agora chove. Ao longe, o arco-íris diz que a paisagem pode ser feia e não há remédios suficientes para suportar, mas ainda há de ser amor, se por olhos livres.
Lembro que na última vez comprados, pareciam fortes. Agora, nem analgésicos, nem anfetaminas. Morro de amores pelas cores esquecidas. De lado, flagelos abandonados aguardam tempo para me aquecer. Visto asas. Figuro entre passeatas solitárias, e me molho de saliva por outra vista bonita assim.
Invisível, não procuro proteção de madeira envelhecida ou trincheiras. Minha luta é pelo ar. Onde ele passa, aonde ela passa, por onde não vejo aonde vão. Fico vendo – camuflada – forrarem o estômago com a fome nas mãos. Não comi nada. Não preciso já.


Amanhã, talvez por ti.

por: Patrícia Galelli

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O que há em mim que sufoca?
Esse tal conhecimento. Esses livros que não li. Essas informações que não entendo.
Minha burrice me incomoda. Minha ignorância me incomoda.
Nunca será suficiente. Nunca irá terminar.
A vida é um processo de conhecimento; o tempo é pressão e cobrança.
Eu perco meu tempo com nada.
Olho meus livro e não tenho vontade nenhuma.
Não por que são ruins, é por que não tenho ânimo.
As coisas tem mais sentido quando leio, mas logo se perde quando esqueço.
Olho o mundo e da minha cabeça nada retiro. Nada se processa nos meus neurônios da "intelectualidade".
Eu só penso no nada. Eu vivo no nada.
Por que me preocupar então?
Comparação!
Competição!
Vaidade!
... mais nada.
Só para efeito de conversa.
Será que entenderei aquilo que está me sendo dito?
Será que serei inferiorizado por aquilo que não sei ou não acredito?
Ah, mas que saco de vida.
Que coisa chata é essa coisa de conhecimento.
Perda de tempo dos dois lados.
Eu apodreço; e nada vivo e nada conheço.
Na minha cara está estampada a rudeza da culpa e a grosseria do rancor.
Culpa de não saber e rancor de não poder.
O que restará disso tudo?
O que devo fazer?
Cai no nada e agora tenho duas vias: aceitarei esse meu nada como a morte de minha existência ou destruirei aquilo que não entendi ou não entenderei?
Escrever é a arte de destruir e construir.
É ser corajoso e um medroso.
Tem medo do mundo e coragem para enfrentá-lo.
É ressentir.
É se matar para nascer de novo.
Deve matar esse mundo e fazer brilhar um mundo novo.
Mas o mundo é real e o novo é irreal.
É escolher entre viver no real ou no irreal.
Duas escolhas:
Duas portas a seguir:
Ir para o mundo e o aceitar tal como ele é, ou ir para ilusão e negar o mundo tal como ele é.
A primeira concede o prazer de viver, o segundo o desprazer de viver.
O primeiro é aceitar, o segundo é rejeitar.
O primeiro é ser aceito, o segundo é ser rejeitado.
O mundo clama!
Mas e a alma? Não descansa!
Na alma de cada indivíduo há a impotência: de nada mudar e de nada valer.
Olhe-se no espelho. Respire. Olhe no fundo de seus olhos. E então veja...Veja que nesse mundo, você não vale a pena.

por: Robson Almeida

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Para os Mecânicos de Guarda-Chuva


Consertar as calçadas,
os postes,
menos as pessoas,
essas eu acho que vai muito tempo ainda,
talvez dois milhões de anos.
Pra esse desacerto total,
precisamos nos proteger
dessa chuva que não é água,
mas diarréia!
Dê-me, então,
um guarda-chuva também.
Melhor se precaver,
ainda mais nesse inverno
da poesia e da utopia.


por: Volmir M. G.


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A luz da lua da meia noite

Lá vai ela, conduzida pela lua de sua deusa,
Vagando pela noite adentro despreocupada,
Seu vestido branco e longo denuncia toda sua pureza,
Sua alma por um momento é elevada.


Era noite de lua cheia, quem me dera,
saber sua intenção,
tão bela, celebrando seu ritual de primavera,
Cantando uma estranha canção.


Tantas surpresas a noite pode trazer
mas ela não parece se preocupar,
Apenas executa sua dança com maestria e prazer,
Deixando toda sua inocência estampada no olhar.


Sob a luz da lua da meia noite deixa sua oferenda no alto da montanha,
E segue pelos campos verdes de Ghirion iluminando a escuridão,
Nenhuma culpa ou arrependimento a acompanha
Satisfeita, retorna a sua vila, certa de sua solidão.


por: Ricardo Daneluz

Feche o Guarda-chuva, deixe-se molhar....

Mais que um dia

Mais que um dia, mais que uma noite bem dormida, mais que reflexões sem ações, mais que diálogos, mais que monólogos, mais que desabafos, mais que mesas de bar, mais que copos vazios. Mais que tudo isso junto, separado ou misturado. Mais é preciso. Mais que tudo isso porque tudo isso acaba virando tempo perdido.

por: Ana Barbara dos Santos

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Estranho


estranho ainda não ter te escrito nenhuma carta de amor
daquelas com ênclise, próclise, mesóclise e citações a Sartre e tantos outros
estranho nem ao menos ter te escrito algo que parasse na caixa dos segredos
ou das ilusões
estranho
seria daquelas enormes cartas de peito rasgado
de letras e letras e letras sem rumo e sem sentido
apenas desabafo
transposição de fantasmas para o papel
estranho nem ao menos uma carta
como aquela do amor à primeira vista pelo menino do colégio
de quem nem me lembro o nome
estranho
estranho o aprendizado, a maturidade
ou estranho a covardia que adquirimos quando ficamos velhos

*
ou, talvez, não acredite mais no amor.
estranho...

por: Sâmia

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"Não há o amor

Não ao amor"


por: Josiane Cristina Barbosa



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"- O que você prefere, meu corpo ou minha alma?

- O que você quer dizer com isso?

- O que estou dizendo. Estou me sentido como se não dominasse minhas palavras, não é nada, mas o diálogo; é como se me restringisse. Estranho, porque se eu o encontrasse em outro momento seria diferente. Você não respondeu minha pergunta.

- Quero as duas coisas, mas sem dúvidas muito mais a sua alma."


por: Davi Amorim



ººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººº



Inerte


Onde estão meus pesadelos, meus medos onde foram parar; não há mais insegurança nem ansiedade em meu olhar, nem vida. Onde deixei meus sonhos caírem, em que cova os enterrei. Será que se perderam na minha imensa falta de esperança?
O meu coração se confunde com um abismo, onde os sentimentos não param de cair, onde eu apenas sinto sua velocidade se distanciando cada vez mais do meu pensamento que permanece para sempre inerte, sem esboçar a mínima reação, sem dor, sem amor, sem voz.
Os dias viram inegáveis constatações,e viver torna-se uma fatalidade, grande muro que impede os homens de pular. Percebo agora que o forte que fiz pra me proteger, transformou-se em cárcere,e não há mais saídas, estou a salvo, não posso morrer.

por: Romulo Brosco

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.
..
...
...olhando ao redor...
...na paisagem morta...
...não sinto-me mais viva do que ela...
...nem sequer mais colorida do que era...
...um pedaço de mim como um galho seco enfinca seus espinhos nos calos...
...de feridas ainda abertas... com as cascas recém formadas...
...com ematomas por toda a alma...
...e eu não mais viva do que ela...
...
..
.

Texto e imagem por: Thais Naomi - TnY


ººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººº



Tão calmo quanto o balançar das árvores...
Tão quieto quanto o farfalhar de folhas mortas...
Tão forte quanto o farto bardo sempre a recitar...
É agora o meu sentimento por ti...

E por mais que pensamentos fluam de minha mente...
Eu não posso mais pensar claramente
Pois toda essa calmaria me transtornou
E num caos berrante e ensurdecedor se transformou...

E minhas pernas sempre a balançar
Numa tentativa frustrada de me acalmar
Mas a cada segundo que perco parada
Faz-me querer morrer calada

E parece que ninguém percebe
O quão vulnerável eu posso ser
E parece que pereço inerte
Sem ninguém pra me aquecer...

Tão calmo, tão quieto e tão forte...
Tão agitado, barulhento, porém frágil...
Tão... tão... tão...
Tão eu... tão inacreditavelmente eu
Completamente perdida e desamparada
Tão eu... tão inacreditavelmente eu
Completamente sozinha e alucinada...

por: Renata Rodrigues Alves

sábado, 7 de junho de 2008

Vanilla Sky

imageml: Sid Geremia


Senti só o que pude. O peso do tênis. Abaixa cabeça, levanta cabeça – "Oi". Passa, não volta. Permanece. Se perde. “Ele é estranho”. Brota coisas importantes que não sei se quero. Repara óculos, aparelho, dente. Revê - aparelho nos dentes. Repassa forma geométrica quadrangular rabiscada nas calças. Pega a jaqueta, textura da camisa, pergunta de onde é. “80 km”. Dorme. Acorda. Se apronta. Toma café. Escuta, ouve, fala – nem deveria. Escuta de novo. Toma café. “Oi”. Almoça. Revisita. Volta. Combina. Manda embora. Ouve. Escuta – fala de novo (mas fica quieta, imbecil – o tal Roberto é um gênio!). Se cala. Ruma. À casa de alguém. Come. Dorme. Seca a louça. Paga o carinho que nem sabe, pela mesa redonda e família. Volta. Mão única, mão única – pega a outra mão única. Sobe, vira, sobe mais um pouco. Estaciona. Desce. “Oi” e fica. Já havia começado ontem. Volta pra casa. Agora é processo. É Oxidação.

O oxigênio constitui cerca de 21% da composição do ar. Espera. Foi depois de assistir Vanilla Sky. Foi depois de perguntar por que eu fiz isso. Foi depois de lembrar que prometi. E escrever sobre sentidos que não vi. Que não conheço. Que falo agora sem propriedade. Sem nada. Um quase “Sonho Lúcido” com defeito no subconsciente. Que posso falar dessa arte? Oxida. Pude sentir 21%. E só.

A que mais explica é feita do recorte de um monte de amarras. Uns e ele, chamam de linhas. Mas linhas parecem moles, sutis, finas e necessitam de agulha para chegar aonde for. As amarras oxidam. Têm DNA de arame. São firmes. São gentes confusas por aí. Sou eu. Naquele meio focado, um casulo perdendo elétrons. Um casulo oco. Um casulo escondido no miolo dos que perguntam o que é. E o que é?

Assisti o céu de Monet. Comi a baunilha. E lembrei que prometi.
Dessa arte sei só do que não vejo. Sei da imagem que eu faço – o plágio da idéia que ele não teve, que fiz com a idéia que ele deu.


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segunda-feira, 2 de junho de 2008

Psicose

Eu estou doente. Quando entrei na sala, a percepção acirrada do meu mal veio de fino, quase remoendo meus rins. Tive medo de mover o pé num passo. Medo de cair e não saber voltar.

A sala não era lá grande, nem pequena - pelo contrário. Nem parecia uma sala. A sala era uma salada de frutas com bananas, maçãs e um mamão inteiro picotado como rascunho de uma idéia falida, antes de se fazer idéia. Corri tanto que sequer movi o corpo. Corri num desafeto extremo por ter traído meu sedentarismo, e atraído nesse desatino a saudável náusea de viver. Vomitei. A inadequação da minha força lambeu a harmonia do desespero da minha falta de senso. E eu vomitei de novo.

Tudo dói. Eu estou doente. A causalidade vem das escolas, da psicopatologia inventada na academia formadora de tantos doidos, que tiram seu sustento da minha cura que não acham. A tendência que tem o meu corpo em adoecer não é de agora, eu sei. Fígado, pâncreas, intestinos. Um câncer em cada um. Carrego a esperança de ainda ter a alegria de descobrir que, ao menos um deles, é benigno. Ah, como estou ferrado! E visito. A abordagem clínica se faz desenhada em quadrinhos pelos punhos canhotos dos 17 médicos que visitei. Uma abordagem por 34 olhos clínicos cegos. Maldita formação acadêmica. Malditas universidades. Viajei as últimas semanas em busca de uma cura para a decepção que me causam aquelas malditas palavras, ditas 17 vezes da mesma forma: “Está tudo certo com você, os exames não apontam doença alguma”.

É mentira! Eu estou doente. Não é da cabeça. A pele interna do meu estômago (chamem do que quiser) está corroída pelo meu ácido clorídrico. Meus dentes em breve vão derreter. A saliva é tóxica. O beijo é tosco. Não quero mais ser obrigado a comer cenoura para garantir, antes que piore, ao menos a miopia. Chega de discutirem. Quero os empréstimos que pedi para buscar alternativas no exterior. Aqui nesse país a ciência é devagar, os médicos uns iludidos. E eu estou doente. Vou morrer.

Não quero mais ouvir piadas me chamando de psicótico. Não quero saber da porcaria do modelo Organodinâmico com enfoque bio-psico-social, para explicar que porra é responsável por minha doença. “Você tem Doença Mental”. IDIOTAS! Não é da cabeça. Se parassem de julgar o meu amor-próprio, que me faz lutar pelos meus poucos dias, e dessem alguma receita legível para amenizar a agonia da minha dor... Mas não. Eles apenas riem depois que o movimento da porta se encerra, fechando a normalidade deles na sala patética que apresentam como consultório.