quinta-feira, 29 de maio de 2008

“O amor é o quero-porque-quero. [...]

No amor só existe o que há de pior no homem.”

Fragmento de Oswald de Andrade em “ A morta”

terça-feira, 27 de maio de 2008

Persuasão


A gente entra numa nuvem quente com um quadro na parede, de pôr-do-sol. E vê tudo cor de preto do infinito, com pontos de branco - de estrelas...
Suspira a eternidade nos pulmões... A gente estaria de barriga para baixo. E os pés. Não há nada nos pés. Não haveria, a não ser um vento sutil, daqueles de quando o ventilador gira as hélices com preguiça. Quase morto, quase sem luz e a gente só dorme de bom que é.
Com os braços abertos. A gente sentiria tudo. Tudo isso, sabe. A transcendência, a magnificência, a correspondência, a demência, que fosse. Ia sentir o tempo que não pára e o tempo que não chega. A gente ia sentir todo o amor que sente. Todo, tudo. E nada...Mais.
E ia girar no lilás das nossas causas. Defeitos e ilusões – essas pulgas que não viajam, se morrem de rir da gente. É. Mas assim. A gente ia ficar parvo. Idiota, sem se importar com as verdades diversas. Ia contemplar a verdade mútua que se fazem as nossas duas verdades – E há de ser a felicidade suprema...Percebe?
- Ta bom, mas quem empurrar primeiro, tem que se jogar depois.
- Espera, me dá tua mão...

. . .

“Guarda
Um pedacinho do meu coração contigo
Fica com ele como prova de amor”.
(Cazuza)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

um peixe

Um pedaço de trapo que fosse
Atirado numa estrada
Em que todos pisam
Um pouco de brisa
Uma gota de chuva
Uma lágrima
Um pedaço de livro
Uma letra ou um número
Um nada, pelo menos
Desesperadamente nada.
por: Patrícia Galvão (Pagu)

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Sexta à noite

Hormônios. Parentes dos neurônios, filhos dos aminoácidos. Estupidamente debilitados e um tanto loucos, das drogas que o povo consome para acalma-los. Identificados em 1902, completam ciclos viciosos, detonando a moral de moralistas demagogos e divertindo os descendentes hormonais desconhecidos com a futilidade sutilmente derramada nas vontades, que dão origem aos atos sociais de suas vítimas.

Quando encontrar Aline, ele vai perguntar sobre hormônios. Sobretudo, qual o hormônio do amor. Não do amor que estimula músculos, sobretudo o músculo genital. Mas do amor poderoso e ditador que figura entre uma ansiedade alcoólica e o ataque cardíaco que ele sofre toda vez que tenta estabelecer conexões humanas com outros humanos. Sobretudo, humanos a quem se desmonta em exagerada afeição.

De feição mórbida e nariz constipado pelo excesso de calmantes ingeridos, viaja Arizonas imaginando cactos nascendo nos dentes, sugando toda gota de saliva castigada no deserto de sua boca, lotada de dunas. É um peixe sem asas, no mar da desigualdade. Ele é o carro deixado no estacionamento, enquanto o dono aprecia a festa dos desesperados. Um condenado a pensar a existência, antes que pudesse aprender a sorrir. E não chora, porque já embruteceu.

Hormônios, os filhos revoltados do corpo. Os professores químicos. Os jornalistas do meio celular. Ele já julgou: “jornalistas são sempre filhos da puta”, sobretudo os do meio celular. Eles e os efeitos de longo prazo. Vagarosos e ordinários – os hormônios. Eles, as mulheres e as tabelas para não engravidar. Para engravidar. Hormônios e a época fértil, sobretudo a dos homens – a dele. Eles e o aborto desajeitado dos sentidos civilizados da PESSOA masculina e da PESSOA feminina. Ele e a terrível saudade de conversar com Aline, sobre hormônios.

Quando lembra que foi um cachorro pervertido por culpa dos malditos hormônios, ele pensa em Ana. Pela vigésima oitava vez pega o celular.

“Alô!”.
E o orgulho hormonal dela agride o orgulho hormonal dele, basicamente em seis palavras: “Foi bom saber que você existiu”.

O vôo


Voei. Não sei como decidi. Sei que minhas pernas se entortaram de tanta força pra me empurrar pra cima. E meus pés quase atolaram no fim da plataforma. Depois minhas asas se descolaram. Doeu. Sabe quando dói mesmo?, é uma dor do mesmo jeito de quando a gente corta o dedo na serra elétrica e fica olhando. Doeu assim. Uia, que dor! Depois, deu vertigem. No começo dá, né? Uma certa secura na boca acompanhada da impossibilidade de engolir. E aquela vontade de vomitar. Todos que voam pela primeira vez sentem isso? Ninguém nunca disse. Também nunca perguntei. Mas, pra que saber? Bom mesmo é sentir. Fazer o movimento. Minhas pernas e pés empurraram, minhas asas descolaram e eu voei. Um impulso, no fim da plataforma. Meus pés afundaram, senti. Um vôo gostoso, de perceber o mundo passando enquanto você voa sob o sol. Um vôo de altitude. De uma certa altitude, já que sinto as mãos geladas nas alturas. Mas isso só acontece quando penso na altura. Posso estar no chão, dando pulinhos, mas se penso, então suo gelado. No vôo, não tem pensamento. Não dá pra ter. É muito rápido, até a gente se arrebentar contra o chão!


Rubens Lunge.

domingo, 4 de maio de 2008

O afeto são moscas importadas


Se a verdade fica mais bonita nua, desço às amarras dos meus cadarços e desato essas vertigens mascaradas. (Quanta libertação!).

O colorido das minhas tintas não passa de disfarces castrados de uma esperança passageira. Devo confessar: Serei a última a morrer. Tudo antes de mim, se não morre, acabo matando. Os neurônios, as células, as vontades, as idéias e, até mesmo, os cogumelos chineses milagrosos e fedorentos, que curam de câncer de pele a hemorróidas. Morrem. Por si, por mim – e, através de mim.

Os enterros, nunca faço. Antes faria o obituário de cada morto num jornaleco qualquer. O perfil seria longo. Um a um, montaria quilômetros. Palavras, letras, erros de gramática, ortografia, acentuação – parcelas incontestes de mortos ainda utilizáveis. Um a um, os perfis seriam escritos com tipos de antigamente. Uma impressão medonha, mas bem diagramada. Cada morto teria ainda a contagem de tempo levado para se fazer o perfil. Seria contado através da proporcionalidade do crescimento de meus cabelos. Quando corto os cabelos na lua crescente, eles crescem! É até inconseqüente a coincidência – ninguém me acredita! Acham que minto, como quando eu falo que para sarar intersol é só passar xixi.

Sempre descrentes, levam minhas demonstrações de afeto como uma espécie de piada mal contada. Afetos que não deveriam ter sido demonstrados. Sofri estupidamente durante vários meses, buscando entender por que o carinho foragido da minha clausura se ferrava toda vez. Os reclusos comandavam meu país de sentimentos. Os libertos se enrolavam na liberdade até tropicarem, caírem e não passarem de vagabundos abandonados.

Procurei uma amiga para falar do assunto. Ela, enfermeira veterana, me deu grande ajuda pelo desabafo que permitiu. Quando expliquei os lapsos desnutridos, que afoitos saltavam a demonstrar a fraqueza afetiva que eu guardava, ela logo prescreveu a solução. “Tu deve importar moscas Tsé-tsé da África”, me disse, compadecida. Tive vontade de esfolar a cara dela. Mas me contive. Exatamente depois de dois dias e quarenta e sete minutos, pensei melhor e resolvi pesquisar sobre as Glossina palpalis. Encontrei um conceito altamente científico no Wikipédia. Só não tive capacidade de entender como as Tsé-tsé poderiam me envolver em algum consolo. A enfermeira falou com tanta convicção, que despertou em mim uma ânsia terrível de encontrar sentido nisso. Enfermeiras não parecem profundas em suas colocações, mas, mesmo assim, comecei a procurar o obscuro, a catar a mensagem subliminar, se é que existia. Cantei minha insistência quase que como um mantra da salvação.

Transmite a “doença do sono”, causada pelo tripanossoma brucei e têm três variedades, todas hematófilas. Vejamos... É encontrada no lago Chade, ao oeste do Senegal e a leste do lago Victória. Vejamos... Autoridades da área de saúde cogitam extermínio. O inseto tem uma cor chamada âmbar, com abdômen listrado. As asas são transparentes. Vejamos...

Nenhum sentido a priori. As demonstrações contorcidas se engataram na falta de sentido das palavras da enfermeira (ainda mais contorcidas e confusas para mim). Doença do sono... Talvez importar uma mosca dessas me faria perder tempo com pesquisas visuais nada analisadoras, muito menos científicas, me mantendo ocupada o bastante para não torrar o saco de ninguém com demonstrações de carinho. Ou ainda, a “dona cruz vermelha” quis dizer que, ao adquirir a doença, eu me livraria desse problema insólito e lindo que é a insônia, e passaria minhas noites descansando no conforto da minha cama, sem causar a ninguém o desafeto de ser amado. De fato, como a doença é fatal, eu não mais causaria mal algum, mesmo que insistisse. Enfermeiras são, realmente, profundas!

É um assunto deprimente. E sem sentido. Mas verdade seja dita, nunca pensei num suicídio assim – tão original. E quem disse que em algum dia pensei em me suicidar? Sei lá o que a enfermeira quis dizer. Numa dessas confundiu a mosca e a “doença do sono”, com a apnéia. Portanto, a mosca não vai me matar. Tratarei de fazer um belo obituário para essa idéia também. Ato as amarras, vertigens mascaradas e me prendo. A esperança, passageira que é, sempre volta. Mesmo que “sempre” seja uma palavra que demore muito, porque não termina. Tudo, antes de mim, tem certeza de que volta. Neurônios, células, vontades, idéias. Até mesmo os Tibicos - os cogumelos chineses milagrosos e fedorentos, que curam de câncer de pele a hemorróidas.