segunda-feira, 31 de março de 2008

Coração

Soprei gelado, para ver se ele acordava. Veio em mim a fumaça do descaso. Quase pesou mais que as estrelas que apaguei. Minha condição se desfez feito as soluções químicas mal feitas – que se tornam explosivos. Foi-se a intenção.
Ele, frágil como vinha, soprou ao ouvido dessa minha cabeça oca a fórmula do acerto. Ignorei. É base dos descrentes ignorar. Menti uma vez mais aos que tem a virtude de acreditar e perdi – ao iludir – um beijo, ainda que seco e sem paixão, de uma possível verdade.

morro de amores
pelos nadas que invento.

pelo descaso, descalço,
dessas minhas
dívidas
- que duvido,
e não
pago.

Ainda que leve, me perco em circunstâncias minhas.
Apagadas de tanta vida.
Amarradas pela ausência de sinal, que ele deixa.
Sem nuances,
sem fortunas,
sem ares
sutis.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Colapsos da vida Láctea


Minha antiética proliferou em uniformes zumbis. Cogumelos extasiados de dor besta anunciaram meus pesadelos. Eu não gosto de uniformes. (A nudeza, com toda a diferença que preza a igualdade, é o único uniforme admirável.) Esqueci, dessa vez, os cuidados com a escrita, a fidelidade ao tema. Seguirão agora traços mal pensados e do gênero “analfabético”. São cuspes – para diversos lados - que secarão.
Meus atos funcionais fazem dos meus nervos, sangue e restos de corpo, produtos para uma marca que paga muito pela hipocrisia e nada pela anestesia necessária à sobrevivência. “Que monstro, a insanidade do teu rosto!”, eles me dizem assustados com o silêncio que me protege de mentir. A simpatia da tolerância informa: se ignorantes como todos, então ignorantes iguais. Espelhos. Ou não. E então eu tolero, vomitando.
Não vivi nada e sinto muito pouco do que resta – sinceramente não espero que as pessoas continuem indo para abatedouros, como vacas utilitárias e sadias para saciar quem pode muito, mas nada de sentido tem.
Eu diluo idéias sobre mim a exercitar minha preguiça. Tudo é história do Eu lírico. Minhas piadas nunca são entendidas, mas eles riem. Eu entendo, a piada sou eu. Sempre mais conveniente e engraçada. Sempre para o prazer da coletividade dos egoísmos ao meu redor. Eu tenho culpa. Eu tenho erros pendurados nas calças jeans, no fracasso da minha solidão, que antigamente não era clichê. Eu não tenho dinheiro. Um azar anormal, que virou moda. E então eu desenho, porque não preciso separar ou explicar idéias. São coisas que os outros inventam, mas pensam que saíram de mim. Meus bolsos são vazios, camaradas! Eu não tenho nada.
Fede àquele cheiro satírico do lixo essa falta de amor. A intolerância beira o precipício e sabe voar. Eu não tenho instrumentos, nem penas ou contos industrializados. Não vôo. Nem com pára-quedas. Pára-choques. Paraliso e fico, sobre tentativas e falhas esperadas. E falam, as pessoas sempre falarão. E eu.
Um velho gordo, fedido à cachaça, cigarros e adepto ao “taradismo” disse, na invisibilidade dos meus dias passados num bar imaginário, uma coisa que, embora eu tenha esquecido, sei que foi a sentença mais importante da vida dele. Era algo como: “dane-se as línguas doentes que se enrolam em curiosidades da vida alheia, ao tempero da vivacidade dos alvos azarados. Podem, sempre ignorantes, aumentar a temperatura do fogo, mas jamais saberão em que parte do oceano fica o inferno”.
Ele tentou ser filósofo, mas acabou sendo administrador de uma franquia de produtos agropecuários. Durante 15 anos, tentou comprar um cilindro e um forno especial para fazer pão e aumentar a renda. Ele nunca atentou para detalhes e não soube negociar sequer o preço da mãe. Hoje vive de ser filho da puta e só vende pão dormido.

Na contradição dos meus dias mal vistos, eletrifico.
E caio.

domingo, 23 de março de 2008

Revisão

Revis(t)a. Tirou os tênis, o tipo de letra, o jeito cinza. A tinta impressa. Imprensa. Imprensou e passou a revista. Do outro lado, deu duas dicas de como viver.
Tirou o perfume dos cabelos, a cor do olhar, o gosto da língua. Sangue. Daqui, mandou por e-mail três exemplos de como matar.

A(prendeu). Atuou como vigia da crise dos outros. Em mente, só tinha a posição inversa. Identificou a insignificância do progresso. Trouxe à tona falcatruas daqueles tijolos esquecidos – um edifício demolido hoje, às três e meia da tarde.

Dissert(ou) sem vírgulas, incompleto e não flexível o episódio inventado na noite anterior.

“Vocês não lêem jornal?”
“E por que esse interesse todo pelo nada?”

Continuou tirando. Tirou a ordem. Tirou a vida. Tirou o brilho do brinco da madame de quinta.

“Não leio política”. (Caras espantadas). “Leio primeiro política – que é para esquecer mais rápido”.

Des(carregou) três cargas sinceras de nervos e cinco desculpas corridas de toda gente. Começou há cinco minutos e quarenta e cinco segundos. Foi para escanteio. Nenhum gol.

“A chamada era grande e ninguém leu por falta de legenda na foto”.

(O) atual mudou o atualmente há dois minutos. Rapidinho.

(ontem).

Provisão para já

imagem: arte de Rodrigo Mota
www.designmota.blogspot.com


(numa conversa com um amigo psicólogo...)

...
- O que os duendes disseram quando fui lá?
- Que você é uma boa pessoa.
- Isso quer dizer que eu devo me suicidar?
- Sim, você deve amar alguém.

...

domingo, 16 de março de 2008

Mais um dia...

Olhou-me e sorriu
Ela é toda graça
Disse que estava me esperando
Prometeu-me “amor”
Prazer infinito por um preço justo
Seu rosto de anjo quase esconde as olheiras
Das noites em claro, claras esquizofrenias.

Com a recusa do não freguês
Olhou para o lado buscando o sol
Trocou o sorriso pela agonia
Agonia de quem não sabe amar
Espalhou sua tristeza por toda esquina
Podre menina, nunca mais se apaixonou.

Recolheu sua agonia e num instante dissimulou sua frustração
Olhou o dia como se fosse igual
Com a mesma postura formosa retomou seu sorriso
Passando o próximo freguês
Piscou e fez: Psssiu

sábado, 15 de março de 2008

A insanidade não tem nome

na cidade onde nasci
há uma lenda sobre
uma cor:
“preto chumbo”

mas e “preto claro”, existe?
- não seria cinza
escuro?


Às vezes ele tinha barba. Dizia, toda vez, insanidades que explicavam os passos tropicados que dava. Tenho me ferrado tanto que brota uma inspiração doida, é a vida! - Ele dizia toda vez. Eu dizia - Nem percebo mais as ferradas... Me ferrar, respondendo jornalisticamente, é muito importante para mim. A coisa constante que varia de ofício para ofício – Mais ossos que saudades. - Parece que gosto de me ferrar - Me dizia.
9:17, avisou. - Estou terminando um textinho, acho que publico em meia hora...- Quero ler, li teu passado - Atualizei a memória - Será que me perdoa pelo descaso?
- Li teu comentário - Ele me disse. Acertei, porque ele concordou - É mesmo um desabafo de dor de amor, inegável - Me dizia - Eu acho que no fim, eu temo tanto a resposta, que eu mesmo a antecipo e contagio a pessoa que me responderia. - Eu faço isso sempre - Eu disse - E fico sozinha. Dá vontade de me dar um soco. Ele, na mesma confusão que a minha - Vamos nos agredir um ao outro, dois teimosos - Sugeria.
Sabe o que é...? - Eu me explicava em desculpas - Eu me expresso por detrás da cortina e quero que me vejam... Eu me pergunto: Como vão responder se eu não pergunto? Eu explico - É como se eu já soubesse a resposta. Então eu mesma respondo.
Às vezes, eu não sabia como ele era. Mas ele dizia - É mais ou menos isso comigo, só que eu teimo em não aceitar a resposta que eu mesmo inventei. Eu concordei - É...exato. Isso também acontece...Eu acho que deixo as pessoas loucas. Daí fogem de mim, como eu mesma faço.
- Exato, eu assusto as pessoas - Ele dizia, e perguntou - ... é você na foto, ou o Andy Warhol quando jovem? - Eu e uma capa da Rolling Stone – Eu disse - Achou parecida? - É que está pequena e não dá pra ver tão bem...
Ele tem uma boa imaginação para catar tangentes.
É – Eu dizia - ...pensando pelo lado dessa semelhança, é melhor mesmo eu seguir minhas respostas...Andy Warhol, quando jovem, devia ser mais feio do que era quando idoso e cheio de reumatismos.
- Ele já nasceu um maracujá de gaveta, então? – Ele dizia (e devia rir da situação), e continuava - tipo o Mick Jagger, mas numa versão piorada? Não – Eu respondia -, a versão piorada sou eu.
É nada – ele disse.
Melhor mudar de assunto. Anticrítica de baixa auto-estima é coisa de gente fraca.
Meu texto está tão otimista que acho que vou jogar fora – Ele continuava. Minha vez, e lembrei - Cara, ontem caí da escada na faculdade, foi emocionante. E ele ainda no passado da palavra - Mas gosto por ser uma contradição ao que dizem de mim: que escrevo só coisas tristes... Só escrevo coisas tristes? – E continuou - Tu te machucou, sua desastrada?
Pior que não. Nem bati direito a bunda - Eu já sou especialista, cara...Não é bem assim, cair e se machucar - Sou profissional...
Olha – Eu disse - tenho que te contar uma coisa: Ontem foi a primeira aula na frente da câmera...Tu vai fazer jornalismo, né? Eu me senti uma banana, não saía nada. E ele dizia - Vou, mas quero distância de câmeras. Eu continuava - Todo o meu cérebro congelou. Eu não sei o que falei. A boca mexia, saiam as palavras. Eu estava de olhos abertos, mas não enxergava. E eu falava, falava - Acho que sou individualista de mais pra isso. Minha condição de invisível se desnorteou, sabe... – E ele só pensava - foi como se tivessem me vendo limpar a bunda depois de cagar. Ele riu.

... E os farelos de pão foram com o vento, a procurar por aí, o bico de algum passarinho.
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segunda-feira, 3 de março de 2008

Procrastinação

O depois não existe. As coisas destruídas não existem mais. As que ainda falta inventar, sim. Existem na gente. Às vezes faltam por si só. Às vezes fazem faltar – fazem falta. Deixo tudo para a última hora. Essas coisas que existem ficam escondidas, sabe. Onde? O lugar é famoso por ter o necessário. Um caos vulgar e desregrado. Terrível por não ter passado, sem culpas. Bêbado de negação. Uma negação pura. Invenção. Ali, o medo serve de fronteira somente para o tempo - uma criança chorona e desgraçada - que apanha do ócio, Senhor da dignidade. O trabalho é pouco mais que mera coincidência. Serve só para acompanhar idéias. Esse Estado de Inconsciência (seja lá o que isso pode significar) é o fantástico mundo da Procrastinação. Que me ferra sobre qualquer responsabilidade. É um paraíso...
O problema é que não posso viver nele. Vira o inferno essa vidinha mais ou menos. Tenho que ser eu, e o azar da falta de ação. É complicado ter que ir em frente sem o Eu lírico do “Mundo do Adiamento”. Ele explica tudo, dá desculpas. Deixa tudo colorido. A procrastinação é a demência mais charmosa. Uma cena de cinema em película P e B. Cigarrinho na mão. Meia luz. Barbas, bigodes e chapéu de detetive. A procrastinação é um eterno pensar. O exercício máximo da mente. Musculosa e burra – um tesão.
Desoriento para a primeira pessoa dos textos que nunca termino toda a minha falta de mim. A minha primeira pessoa não sou eu. É, em grande parte, outros e mais alguns. Nada por completo. Um padrão autêntico de tentativas. As primeiras pessoas dos textos que eu fracasso são um retiro bandido das vontades que tenho e que passam, como vêm. Eu disse sem respeito aos loucos que admiro, certa vez, que o pó das minhas idéias me leva a viagens adulteradas ao interior do meu corpo. A resposta foi o silêncio dos mortos. Não admiro ninguém. É como um vício preguiçoso, que preciso para SER.
Fico guardando pedacinhos de passado para escrever adiante, como quem guarda momentos que nunca existiram para viver depois - um dia. Eu perco o aço da vontade, diluo a vida ao fogo, como são derretidas colheres de banha para fritar bolinhos de chuva. Usa-se e joga-se fora. Perdi tudo o que não tive. Tudo o que construí. Dos meus desenganos, restaram tijolos invisíveis e motivos cravados no alicerce do nada. Tudo o que resta vem sendo destruído. Eu nego o começo, fico com o final da não-existência. Eu sinto uma falta que nunca falta. Como uma escala inversa - sigo desconhecendo aos poucos o vazio de mim e de minhas promessas.
Sabão, água, esfregão. Apago recados, reprimo o estômago. Nas costas, todo o peso da iniciativa e do abandono. As coisas vão sumindo. Existindo, como eu e você, para serem apagadas. Nada de valores. A inspiração foi ao lixo. As tintas – gastas como clichês insuportáveis. Pincéis varreram os esforços. Quando nasci, bati com a cabeça no joelho. Deveria ter ficado. Hoje, não caminho. Existir para ser apagado. Criado para ser ruínas. Antiguidade para ter valor apenas nas fotografias. Valor histórico. Valor nenhum. Um sonho ausente, desvalorizado.
Só erro. Veias, correntes, mares de sangue comportando resíduos não identificados e uma porção de água muito inferior a 70% formam a falta que me nutre. Cerca de 49 quilos de pura coisa palpável. Eu sei que posso até tentar me livrar dessa liberdade vesga de existir. Mas, nada poupará os ouvidos alheios das histórias explicativas que concedo às minhas próprias retinas. Histórias ilustres do meu Paraíso decaído – em ascensão. Deixa pra lá. Fico de pés firmes na ilusão. Dentro de mim, mais algumas toneladas do que não pesa. Do que não se vende por quilo. Não me falta nada. Eu que falto. Sou ausente como tudo. Numa ausência sadia que mata, lenta e ironicamente.

Como quando o amor acaba...


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