quarta-feira, 28 de novembro de 2007

fragmento


imagem: .patrícia
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(...)"Não tinha consciência de que lado da cidade eu estava. Nem se voltaria. Sabia, contudo, que estava em baixo de algum prédio, de algum restaurante, de alguma casa, de alguma coisa. A coisa mais ao lado que havia era o meu pressentir da presença do velho. Quanto mais passos eu dava, mais chorava a minha covardia, na lama. Eu parecia um desenho animado, desses com histórias mirabolantes de monstros e coragem. Estava para rever o monstro, mas a coragem jamais havia aparecido.
Entre as perguntas que não pairavam sobre o ar, mas invadiam minha mente e desnorteavam o meu tempo, estava a que questionava a sobrevivência desse meu amigo monstro. Há sete meses o vi pela última vez. E, ao contrário do que eu disse na semana passada, sabia que a chuva nada levava para ele se alimentar. Eu desejava, com esperança, que ele fosse deveras um verme. Se humano, como contraditoriamente sei que seria, a taça do meu egoísmo cairia. Em pedaços pontiagudos se juntaria ao vento e viria com a velocidade alcançada num vendaval, a penetrar por todo o meu corpo. Perfuraria cada órgão. Eu tinha medo de uma criatura da mesma espécie que a minha - que eu imaginava ser. Queria que ele fosse um verme, muito. Ou, o meu egoísmo se espatifaria com a consciência desgraçada de não o ter reconhecido e, portanto, não reconhecido a mim mesma.
Apertei com mais força meus joelhos sujos e esfolados pelos tombos de antes, com medo de que o medo não me desse lado – não me pegasse pela mão. Estava no limite.
Os sete meses mal passados rondavam com as figuras da escuridão, minha cabeça. 360 graus. Não houve sequer um dia em que o velho não tivesse passado por ela, rindo aquele riso desdentado e ridículo. O velho tinha que estar vivo, eu pensava. Torcia para que ele não precisasse comer, beber e o resto. Que fosse um verme divino. Que fosse um verme secreto. Que me respondesse sem abrir a boca e me privasse daquela angústia transformada em tentativa de comunicação. Que se fizesse entender pelo olhar profundo e morto, que alimentava com a própria fome. Torcia, sem movimentos ou resmungos. Torcia me universalizando com o silêncio ambiente. O som dos mortos, ou o alívio dos vivos.
“A vida é feita de escolhas”, a mãe dos vivos diz. Então, decidi continuar".

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

ladrilhos


imagem: .patrícia

em ladrilhos, visto uma pele sem perfume.
de sonhar já lembro pouco.
um a um. os ladrilhos formam a estrutura que esconde.

veias.ossos.tecidos.sangue.

vertigem óptica. delírio infame.
em ladrilhos. me formo.
e me arrebento.

sem cimento. sem pilares.
pronta para tirar um. meio. e descobrir
mais um tanto de nadas.

e um punhado de meus ossos.

os poros, os ladrilhos. Esse
frio e meu rosto. o lobo manso
da desordem. a construção
sem rumo de meu corpo.

a epiderme. os olhos
da mente e os dedos.
esse território de soluços
e espantos.

meu espírito
sobre a faca das estruturas
temporais.

vestindo o doce escondido, internamente,
nas estátuas de sal.
procuro sorrir o que teu sorriso me faz.
se chorar, só
lágrimas de soro caseiro.
que deslizam
nessa valeta angustiada - verde, lilás - delirante.
nenhum ladrilho mais.
me desfaço no sangue.
seguindo as veias de fio de cobre.
o pobre nervo de aço, quebrado.
o mesmo jeito dos ossos, desarrumados.
desajeitada assim, eu sigo - sempre
para me sorrir, ao te ver sorrir.

e sangrar como um sol
e uma faca acesa. Como
os poros e esse afeto.
o terreno comum
de nossos antebraços
e os dentes azuis
da vida
caindo agressivamente
sobre nossas costas
assinando nosso
nome e destino.

me reviro. olhos.
língua e sonho.
nossa carne
estendida
sobre o horizonte
do jardim de casa.

não vejo. os olhos rolaram a ladeira.
aceitei a conduta.
refiz o trajeto do sangue.
voei pelos espaços estreitos dos cílios.
fui em busca do teu olhar. porque não vejo.
carne. pele. sangue. flor sem hálito e destino.
caminho. rastejando pelo caminho.
procurando regar o que ainda pode nascer
deste resto de corpo.

o que ainda nascerá desse ventre comum
nossa palavra doce escondida nas pálpebras
da manhã levemente desperta
teus braços sobre o sonho
e nossa visão queimando as horas
dentro do quarto

o silêncio e esse tempo morto
agonizando como um bicho baleado
sobre o asfalto e debaixo do sol
como um cavalo sem pernas

rumando para a próxima estação

velozmente.

carregando uma criança sem data
e as risadas do povo cobrindo
sua pele. uma ressurreição.




***


.patrícia e josé menin